Nem toda religião possui um calendário próprio, único e padronizado, mas muitas tradições religiosas utilizam sistemas de contagem do tempo para organizar suas principais festas, rituais e celebrações. No cristianismo, por exemplo, algumas datas são fixas, como o Natal, celebrado em 25 de dezembro na maior parte das igrejas, embora outras celebrações, como a Páscoa, tenham data variável.
No judaísmo, festas como Rosh Hashaná (Ano-novo judaico), Yom Kippur (Dia do Perdão) e Pessach (Páscoa judaica) não ocorrem sempre no mesmo dia no calendário gregoriano, pois seguem o calendário judaico lunissolar, embora geralmente aconteçam na mesma época do ano ou estação, como a primavera no Hemisfério Norte, no caso de Pessach.
Já nas religiões de matriz afro-brasileira, como o candomblé e a umbanda, muitas celebrações dependem das tradições e práticas de cada terreiro, podendo variar conforme a orientação religiosa, enquanto algumas festas públicas e populares têm datas fixas, como a celebração de Iemanjá, em 2 de fevereiro, em várias cidades do Brasil. Dessa forma, algumas comemorações religiosas têm datas definidas, enquanto outras variam conforme o calendário ou a prática religiosa específica.
Apesar dessas diferenças, essas festas e períodos religiosos têm em comum o fato de serem momentos sagrados que organizam a vida religiosa e cultural das comunidades, promovendo uma pausa na rotina e atribuindo um significado especial ao tempo. Um exemplo importante dessa organização do tempo religioso é o Ramadan, no Islam.
Na antropologia, Émile Durkheim destacou a importância dos rituais e das festas religiosas como práticas fundamentais para a vida social. Para ele, esses momentos não são apenas expressões de fé individual, mas acontecimentos coletivos que fortalecem a solidariedade entre os membros de uma comunidade e reafirmam valores e crenças compartilhados. Ao reunir as pessoas em torno do sagrado, os rituais criam um sentimento de pertencimento e reforçam a coesão social, diferenciando o tempo religioso do cotidiano.
Assim, segundo Durkheim, as festas religiosas desempenham um papel essencial na manutenção da organização social e na construção da identidade coletiva. Muitos outros autores da antropologia, como Arnold Van Gennep, Marcel Mauss, C. Geertz, Mary Douglas, entre outros, também se dedicaram a pensar os rituais religiosos, tamanha é a importância deles para a vida social.
O Ramadan é um período singular na vida dos muçulmanos e segue o calendário lunar islâmico, que é baseado nos ciclos da Lua e não no Sol, como o calendário gregoriano usado na maior parte do mundo. No calendário lunar, os meses são determinados pelas fases da Lua. Cada mês começa com a observação da lua nova crescente, que é o primeiro momento em que um fino arco da Lua se torna visível no céu. Avistar essa Lua é importante para demarcar o início do mês do Ramadan. Um ciclo completo da lua dura cerca de 29 ou 30 dias; por isso, os meses lunares têm essa duração.
O ano lunar islâmico tem aproximadamente 354 dias, sendo cerca de 11 dias mais curto que o ano solar. Por esse motivo, as datas do calendário islâmico mudam todos os anos em relação ao calendário comum.
O Ramadan é o nono mês do calendário islâmico, iniciado com a observação da lua crescente e com duração de 29 ou 30 dias. Nesse período, os muçulmanos realizam o jejum da alvorada ao pôr do sol. Como o calendário lunar é mais curto que o solar, o Ramadan ocorre cerca de 10 a 11 dias mais cedo a cada ano no calendário gregoriano, podendo acontecer em diferentes épocas ao longo do tempo.
Na minha tese de doutorado, Entre Arabescos, Luas e Tâmaras – performances islâmicas em São Paulo, produzi três documentários, entre eles Allahu Akbar, que aborda o mês do Ramadan e sua importância para a comunidade muçulmana como um momento de suspensão da vida cotidiana. A prática de permanecer sem comer e beber durante o dia varia conforme o local: a duração do jejum depende do país e da cidade. Durante meu pós-doutorado em Oxford, em 2016, o jejum chegava a cerca de 19 horas, enquanto no Brasil, neste ano, o tempo de jejum será entre 13 e 14 horas, com variações ao longo do mês e conforme a localidade.
O jejum é o quarto pilar da prática no Islam. Os pilares são deveres fundamentais que os muçulmanos devem cumprir: declarar a unicidade de Deus, realizar as cinco diárias, pagar o zakat (contribuição obrigatória – significa purificação), jejuar no mês do Ramadan e realizar a peregrinação a Meca, sendo esta última obrigatória apenas para quem possui condições físicas e financeiras.
O efeito do mês do Ramadan nas mesquitas em São Paulo, onde realizo pesquisa há quase 30 anos, é bastante significativo, pois é nesse período que muitos muçulmanos se aproximam mais da religião. É comum ver pessoas que frequentam a mesquita ocasionalmente participarem com maior regularidade durante esse mês. Como muitos sheiks costumam dizer, o Ramadan é uma escola, na qual os fiéis reaprendem e fortalecem a sua fé.
No Brasil, certamente é mais difícil manter o jejum quando não se tem uma comunidade próxima ou quando se é o único jejuador no ambiente de trabalho. Eu criei o hábito de distribuir tâmaras aos amigos da universidade, alunos e pessoas que encontro; é uma forma de sinalizar que estou em jejum e também de compartilhar esse momento especial da nossa vida.
No Brasil, por não ser um país islâmico, a suspensão completa da vida cotidiana não é possível, mas é possível estabelecer limites. Após as 16h, por exemplo, o corpo já está mais cansado; por isso, evito compromissos após esse horário. Claro que, sendo professora, as aulas seguem normalmente; apenas compromissos que podem ter o horário modificado são ajustados. Além disso, no Brasil, é necessário parar de comer antes das 4h38, o que exige acordar muito cedo para fazer o suḥūr, a refeição realizada antes da alvorada. Durante esse mês, os muçulmanos também praticam a caridade, leem o Alcorão, frequentam mais a mesquita, evitam discussões, procuram organizar melhor o horário de trabalho e buscam manter uma alimentação adequada, incluindo a ingestão de água nos momentos permitidos.
Algo muito comum nesse período é o convite para a quebra do jejum (iftar) com amigos da comunidade, seja em suas casas, na mesquita ou em restaurantes. É a época em que os muçulmanos mais se encontram e se visitam. Também é comum que pessoas que têm dificuldade para acordar para o suḥūr peçam para alguém telefonar no horário. Quem tem vizinhos muçulmanos pode ouvir a movimentação por volta das quatro da madrugada. As casas estão decoradas com frases do Ramadan, lâmpadas acesas, luas e estrelas luminosas que ajudam na decoração; as crianças também são envolvidas nesse momento. Elas não têm obrigação de jejuar, mas já iniciam a observação dessa prática com seus pais, que muitas vezes fazem brincadeiras e dão presentes diários para que possam aprender sobre o jejum no mês do Ramadan.
Conheci crianças com oito ou nove anos que já jejuavam, com a supervisão de suas mães, mesmo que elas digam que não precisam; outras mães permitem que os filhos jejuem até o horário do almoço.
Se você conhece alguma mesquita ou mussala perto da sua casa, vá visitá-la. Nesse período, a hospitalidade islâmica é ainda maior, e você poderá compartilhar um pouco desse significado de transformação e transportação do cotidiano ao extraordinário — para lembrar Richard Schechner. Há algo de extraordinário no Ramadan, que transforma a vida e o cotidiano dos muçulmanos em algo mais suave e pleno.
Se o jejum é o ponto-chave, a caridade (zakat — purificação do dinheiro) é o que transforma tudo; espera-se que o zakat seja pago antes da festa do Eid, promovendo, assim, a justiça entre os muçulmanos. São listas e listas de pessoas muçulmanas necessitadas que circulam entre os grupos, possibilitando que sejam ajudadas. Nesse momento, a ummah (comunidade islâmica no sentido mais amplo) se restabelece e se fortalece.
(*) Francirosy Campos Barbosa, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP
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