A impermanência e o tempo

A nossa permanência física na Terra só existe porque um “vento” de matéria passa por nossos corpos, deixando átomos em determinadas posições por algum tempo e mantendo a estrutura que permite que nossas redes neurais criem a ilusão da realidade. Mas essa permanência é, de fato, impermanente. Ou seja, somos estruturas transitórias e cíclicas. Os...


A nossa permanência física na Terra só existe porque um “vento” de matéria passa por nossos corpos, deixando átomos em determinadas posições por algum tempo e mantendo a estrutura que permite que nossas redes neurais criem a ilusão da realidade. Mas essa permanência é, de fato, impermanente. Ou seja, somos estruturas transitórias e cíclicas.

Os átomos, quando deixam suas posições e são substituídos por outros, não mantêm o arranjo estrutural inalterado. Com o tempo, nossa estrutura, ilusoriamente permanente, chega a um limite organizacional e se desfaz. Em essência, esse foi um dos ângulos que procurei mostrar ao escrever as séries Carbono e, em seguida, A morte. É assim com toda a vida na Terra. Todos os seres são resultado do modo como a matéria se agita, desde o Big Bang. Ou seja, a energia daquele processo de expansão, ocorrido há 13,8 bilhões de anos e cuja origem ainda desconhecemos, mantém tudo em agitação e torna possível a nossa existência. Após esta pequena viagem cósmica focada na matéria, há algo além: o tempo. Ele é o objeto principal desta nova série.

A permanência dos átomos em certas posições nos corpos dos seres vivos tem um tempo definido de entrada e de saída. Em biologia, usamos o termo “turnover”, da língua inglesa, para nos referirmos à substituição molecular periódica. O turnover ocorre porque a vida existe e acelera drasticamente o processo de substituição atômica. Em outras palavras, isso ocorre por meio do que conhecemos como metabolismo. As células, num frenesi mecanístico intenso, substituem constantemente moléculas velhas por novas idênticas. A fotossíntese captura o CO2 da atmosfera, e as plantas absorvem nutrientes do solo. Colocam tudo de forma organizada para que os demais seres, chamados de não fotossintetizantes, possam ingeri-las, ou que os que as ingeriram a partir de animais possam fazê-lo. Em suma, o vento de matéria a que me referi no primeiro parágrafo é impulsionado exclusivamente pela fotossíntese, que só ocorre porque utiliza a energia do Sol; uma justificativa talvez plausível para quem acha que nos alimentamos de luz.

O tempo de permanência dos átomos e das moléculas depende, portanto, de seu turnover. Porém, o processo em uma célula ou em um organismo multicelular é mais complexo. Isto porque os tempos de turnover não são os mesmos para diferentes moléculas e estruturas. Em outras palavras, do ponto de vista celular e orgânico, somos mosaicos temporais. Nos corpos dos seres vivos, as células têm esperanças de vida distintas, o que é crucial para o desenvolvimento dos órgãos. Como mencionei na série anterior, embriões se desenvolvem às custas da morte e da sobrevivência celulares. Isso, nesta série, pode ser visto sob outro ângulo: o do tempo. E aqui está o tempo cronológico, impiedoso; o tempo que contém o nascimento e a morte. Até aqui, somos o resultado de um vento de matéria que tem como mecanismo um mosaico de turnoveres cíclicos, sendo a seta do tempo absolutamente essencial à nossa existência.

Mas há mais, muito mais nessa cronologia da vida. A sua existência na Terra está intimamente conectada com o Universo em outros aspectos: os movimentos da Terra e de tudo o que a faz orbitar em torno do Sol, o Sistema Solar orbitar em torno do centro da galáxia e assim por diante. É como se vivêssemos num enorme relógio daqueles antigos, com pequenas engrenagens interdependentes. Deixe-me explicar: todo o metabolismo e os sistemas de turnover que mencionei acima estão temporalmente conectados aos ciclos de luz e de escuro devido à rotação da Terra. A luz atua como um maestro de orquestra, mantendo as células e as moléculas sincronizadas. Em ciclos de aproximadamente 24 horas, a vida dorme e acorda. Em períodos de estação, as plantas produzem flores e frutos. O reflexo dessa orquestra é o funcionamento dos ecossistemas e de tudo o que está relacionado à vida em nosso planeta. Para ter uma ideia da importância da luz como maestra da orquestra, podemos pensar na erupção do Monte Tambora, na Indonésia, em 1815. Os efeitos foram tão drásticos que o obscurecimento da atmosfera provocou o chamado “ano sem verão” em 1816. A partir desse evento, houve consequências em cadeia que começaram na agricultura e se espalharam pela cultura e pelas sociedades da época.

O que torna o episódio do Tambora particularmente interessante é que seus efeitos não obedeceram a um único relógio. A erupção foi abrupta, mas os aerossóis lançados na atmosfera permaneceram por tempo suficiente para alterar o clima nos anos seguintes, somando-se a um período já marcado pelo frio da Pequena Idade do Gelo e pela variabilidade de fenômenos como a Oscilação do Atlântico Norte. O resultado mais dramático ocorreu em 1816, o chamado Ano sem Verão, quando o frio, as chuvas excessivas e a redução da radiação solar comprometeram as colheitas em partes da Europa e da América do Norte. Mas o tempo da atmosfera não era o mesmo da agricultura, e este, por sua vez, não era o mesmo da sociedade: uma safra perdida significava estoques menores no inverno, preços mais altos no ano seguinte, fome, endividamento e, em alguns casos, migração anos depois. Algo semelhante ajuda a compreender por que períodos de frio e más colheitas no final do século XVIII, décadas antes do Tambora, contribuíram para agravar a escassez e o preço do trigo numa França já social e politicamente tensionada às vésperas da Revolução.

No verão escuro e chuvoso de 1816, às margens do lago de Genebra, Mary Shelley começou a imaginar sua criatura. Um vulcão explodiu na Indonésia; algum tempo depois, faltou pão na Europa e nasceu um dos personagens mais duradouros da literatura. O clima não fez a Revolução Francesa, assim como o Tambora não escreveu Frankenstein, mas processos físicos alteraram as plantas, as plantas alteraram a disponibilidade de alimento e, a partir daí, consequências econômicas, políticas e culturais seguiram seus próprios ritmos.

A natureza e a história parecem correr em relógios diferentes, mas, de vez em quando, seus ponteiros se encontram. Talvez nosso problema não seja apenas o fato de que tudo muda com o tempo, mas também o de que cada coisa muda em seu próprio tempo. Uma célula substitui suas moléculas em ritmos diferentes; uma árvore leva décadas para crescer; uma floresta, séculos para se organizar; a atmosfera pode transportar, em meses, os efeitos de uma erupção ocorrida do outro lado do planeta.

Sociedades levam anos para transformar uma má colheita em migração, revolta ou mudança política. Em um contexto como este, o clima funciona como um vetor potente de mudança da sociedade.

Durante a maior parte da história, tivemos de nos adaptar a esses diferentes relógios. Mais recentemente, porém, parece que começamos a fazer o contrário: passamos a exigir que o mundo se adapte ao nosso. Inventamos máquinas para percorrer distâncias mais depressa, sistemas para produzir mais em menos tempo e tecnologias capazes de transmitir informação praticamente sem interrupções. Economizamos tempo continuamente e, paradoxalmente, temos cada vez menos tempo. O sociólogo alemão Hartmut Rosa fez dessa aparente contradição um dos centros de sua obra. Para ele, a modernidade não é apenas uma sociedade em transformação; é uma sociedade que precisa acelerar para continuar sendo o que é. Talvez seja por isso que nossa relação com o tempo tenha se tornado tão estranha.

Depois de bilhões de anos em que diferentes processos puderam correr em seus próprios ritmos, construímos uma sociedade que parece querer colocá-los todos no mesmo relógio. No início deste texto, argumentei que nossa aparente permanência depende justamente da impermanência da matéria que nos constitui: permanecemos porque mudamos. Talvez tenhamos transportado esse paradoxo para a própria sociedade. Ela parece acreditar que, para permanecer, precisa mudar continuamente — e cada vez mais depressa. Hartmut Rosa chama esse fenômeno de aceleração social. Se ele estiver certo, talvez tenhamos criado uma forma de impermanência: aquela em que já não basta mudar para permanecer. É preciso acelerar para não desaparecer.

(*) Marcos Buckeridge é professor do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo).

 

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