Os riscos da polarização atravessando os portões da escola

Há silêncios que doem mais do que uma discussão. O silêncio de um filho que já não telefona. De irmãos que deixaram de se encontrar. De uma família que se senta à mesa com receio de que uma palavra transforme o almoço em outra briga. É doloroso perceber que pessoas que atravessaram tantas dificuldades juntas...


Há silêncios que doem mais do que uma discussão. O silêncio de um filho que já não telefona. De irmãos que deixaram de se encontrar. De uma família que se senta à mesa com receio de que uma palavra transforme o almoço em outra briga. É doloroso perceber que pessoas que atravessaram tantas dificuldades juntas começam a se afastar por suas escolhas políticas.

Em períodos eleitorais, a polarização entre direita e esquerda pode entrar em nossas casas e ocupar o lugar da conversa, da paciência e do afeto. Aos poucos, alguém que conhecemos por uma vida inteira passa a ser visto apenas pela posição que defende. Esquecemos quem esteve ao nosso lado quando precisamos. Lembramos somente em quem aquela pessoa pretende votar.

As diferenças políticas existem e merecem ser discutidas. Temos convicções, preocupações e esperanças para o país. Mas precisamos olhar com cuidado para o momento em que a defesa de uma ideia nos leva a ferir alguém. Quando sentimos prazer em humilhar, quando deixamos de ouvir, quando uma vitória numa discussão parece valer mais do que o vínculo com quem está diante de nós.

E as crianças estão vendo.

Elas ouvem as palavras ditas na sala, percebem os olhares, sentem a tensão. Talvez ainda não compreendam o que significam direita e esquerda, mas compreendem quando a voz de alguém que amam se torna agressiva. Sentem falta de quem deixou de visitar a casa. Percebem quando já não podem falar de um familiar sem provocar desconforto.

Depois, chegam à escola levando tudo isso consigo.

Em Indaiatuba, no interior de São Paulo, uma reportagem do Estadão, publicada em novembro de 2022, relatou que um estudante havia levado um soco após uma discussão partidária. Na mesma escola, depois do segundo turno, crianças de 11 anos fizeram ameaças de morte contra os pais de colegas por suas escolhas eleitorais. 

Penso no medo desse menino de voltar à escola. Penso em uma criança ouvindo uma ameaça contra seu pai ou sua mãe. Como se concentrar na aula quando aquilo que lhe dá segurança se torna alvo de palavras tão violentas? Nenhuma criança deveria carregar esse medo por causa de uma eleição.

Essa hostilidade também chegou perto de nós. Em Campo Grande, na passagem de 2022 para 2023, um agente patrimonial de uma escola municipal compartilhou, em um grupo de professores e funcionários, uma foto segurando um fuzil acompanhada de uma mensagem sobre atirar em pessoas de determinada orientação partidária. Profissionais relataram ter se sentido ameaçados. O servidor alegou que enviara o conteúdo por engano, e a Secretaria Municipal de Educação informou seu desligamento. 

É doloroso imaginar educadores sentindo medo de alguém com quem compartilham o cotidiano de trabalho. Pessoas que se encontram nos corredores, dividem responsabilidades e cuidam dos mesmos estudantes precisam encontrar segurança umas nas outras. Nenhuma diferença política deveria tirar de alguém a tranquilidade de entrar na escola.

A história guarda uma lembrança extrema: em 1966, durante a Revolução Cultural chinesa, Bian Zhongyun, vice-diretora de uma escola de Pequim, morreu após ser espancada por estudantes. É um contexto muito diferente do nosso, mas sua morte nos faz refletir sobre até onde pode chegar a violência quando alguém é reduzido à condição de inimigo ideológico. 

Ao longo de minha vida na educação, encontrei estudantes que precisavam, antes de tudo, sentir-se seguros. Para perguntar, para errar, para contar o que estava acontecendo em casa. A escola precisa preservar esse espaço de confiança, especialmente quando o mundo ao redor parece falar cada vez mais alto e escutar cada vez menos.

Isso exige muito de nós, adultos. Exige perceber quando nossas próprias palavras carregam desprezo. Exige interromper uma ofensa, acolher quem foi constrangido e mostrar, em nossas atitudes, que é possível discordar sem ameaçar. Professores e gestores ensinam também pela maneira como recebem uma opinião que os incomoda.

Nenhum estudante deve sentir vergonha de sua família por causa de uma preferência eleitoral. Nenhum profissional deve temer a rejeição dos colegas por pensar diferente. Cada pessoa que entra na escola precisa encontrar respeito, sem ter de oferecer sua concordância política em troca.

A escola pode ajudar a compreender ideias, conhecer diferentes perspectivas e verificar informações. Pode abrir espaço para perguntas difíceis e conversas honestas. Nesse processo, precisamos cuidar para que ninguém seja humilhado, pressionado ou silenciado. Há uma responsabilidade humana em cada debate que conduzimos.

Também precisamos lembrar que, por trás das posições políticas, existem pessoas que amamos. Um pai com quem compartilhamos lembranças. Uma irmã que conhece nossa infância. Um amigo que nos acolheu num dia difícil. Podemos discordar profundamente dessas pessoas e ainda reconhecer tudo o que representam em nossa vida.

As eleições passam. Algumas palavras, porém, ficam. Ficam na memória de quem foi ofendido, no receio de uma criança, na ausência de alguém à mesa. Antes de dizê-las, talvez devêssemos pensar se estamos dispostos a conviver com a dor que podem deixar.

Desejo que nossas escolas ajudem a preservar a capacidade de conversar e de cuidar uns dos outros. Que os estudantes encontrem em nós adultos que sabem defender suas convicções e também pedir desculpas, reconsiderar e estender a mão.

E que, ao fim de mais uma eleição, ainda possamos nos sentar à mesa com quem amamos. Com nossas diferenças, nossas histórias e a disposição de continuar juntos.

Helio Daher

Secretário de Estado de Educação 
de Mato Grosso do Sul



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