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A violência contra mulheres é uma batalha por imaginários



Nas últi­mas sema­nas, tes­te­mu­nha­mos uma esca­lada de bru­ta­li­dade. Os femi­ni­cí­dios atin­gem pata­ma­res recor­des desde que a lei que tipi­fica o crime entrou em vigor. A cada seis horas, uma mulher é assas­si­nada por ser mulher — de forma cada vez mais pública, com cor­pos arras­ta­dos pelas ruas da maior capi­tal do país. A res­posta ins­ti­tu­ci­o­nal — pro­je­tos de lei, dele­ga­cias espe­ci­a­li­za­das, medi­das pro­te­ti­vas — é ine­go­ci­á­vel. Mas não sufi­ci­ente. Esta­mos diante de uma dis­puta de ima­gi­ná­rios. E a socie­dade civil já indi­cou o cami­nho: o levante “Mulhe­res Vivas”, no dia 7 deste mês, colo­cou a vida em pri­meiro plano, não como pauta pro­pri­e­tá­ria, mas como pro­jeto polí­tico capaz de atra­ves­sar dife­ren­ças ide­o­ló­gi­cas. É no campo das nar­ra­ti­vas que a dis­puta se trava. A vio­lên­cia que mata mulhe­res é o ponto de che­gada de um movi­mento cul­tu­ral his­tó­rico, mas que vem ganhando força e orga­ni­za­ção: a ideia de que “as mulhe­res foram longe demais”. De que seus cor­pos e iden­ti­da­des pre­ci­sam “vol­tar ao lugar natu­ral de per­ten­ci­mento” — sob con­trole, comando e sub­ju­ga­ção mas­cu­lina. Essa nar­ra­tiva cir­cula de forma desi­ni­bida em redes soci­ais, pod­casts, púl­pi­tos e Par­la­men­tos. E pro­duz os efei­tos a que esta­mos assis­tindo. O ima­gi­ná­rio é o maior ativo em dis­puta por­que opera nas cama­das mais pro­fun­das da vida em socie­dade. Não à toa, é aí que as for­ças ultra­con­ser­va­do­ras esco­lhe­ram inves­tir, defi­nindo papéis soci­ais sob o pre­texto de serem “natu­rais”. Mas as mulhe­res estão rom­pendo com essa lógica. Não só por­que seguem ocu­pando espa­ços públi­cos, mas por­que dis­pu­tam de forma fron­tal o modelo de poder que oprime, que vio­lenta, que separa. Na pes­quisa iné­dita “Ima­gi­ná­rio de Poder das Mulhe­res Bra­si­lei­ras”, con­du­zida pelo Ins­ti­tuto Cla­rice, ouvi­mos em pro­fun­di­dade mulhe­res em posi­ções de influ­ên­cia de todas as par­tes do Bra­sil, res­pei­tando a com­po­si­ção racial da socie­dade bra­si­leira: 44% negras, 44% bran­cas, 10% indí­ge­nas e 2% de mulhe­res ama­re­las. Empre­sá­rias, cien­tis­tas, artis­tas, lide­ran­ças polí­ti­cas, reli­gi­o­sas, comu­ni­tá­rias — nenhuma des­cre­veu o poder como cargo, título ou capa­ci­dade de mando. Todas o des­cre­ve­ram como verbo: a pos­si­bi­li­dade de trans­for­mar, de fazer cir­cu­lar, de sus­ten­tar. Um poder que se dis­tri­bui, que escuta, que não se mede pela soli­dão do topo, mas pela qua­li­dade das cone­xões que cria e pelo valor ine­go­ci­á­vel da pro­te­ção à vida. Esse ima­gi­ná­rio é espe­ci­al­mente pre­sente na fala de mulhe­res líde­res negras e indí­ge­nas, que his­to­ri­ca­mente enfren­tam a vio­lên­cia de gênero e de raça como binô­mio inse­pa­rá­vel. Como arti­cu­lou Sueli Car­neiro, a van­guarda é via de regra ocu­pada por quem é dei­xado para trás. É a par­tir desse lugar que se pro­duz não só saber polí­tico, mas prá­ti­cas e ima­gi­ná­rios indis­pen­sá­veis para qual­quer pro­jeto eman­ci­pa­tó­rio, não ape­nas das mulhe­res raci­a­li­za­das, mas de todas as mulhe­res. Esse avanço, porém, pro­voca rea­ção. Enquanto as mulhe­res ampliam sua pre­sença pública e pro­põem outras lógi­cas de orga­ni­za­ção da socie­dade, uma par­cela dos homens res­ponde com res­sen­ti­mento. A vio­lên­cia que tes­te­mu­nha­mos não é explo­são irra­ci­o­nal — é ten­ta­tiva de res­tau­ra­ção de uma ordem que se sente ame­a­çada. E encon­tra vali­da­ção em dis­cur­sos que natu­ra­li­zam a sub­mis­são femi­nina como des­tino, não como cons­tru­ção his­tó­rica. É aí que entra a ima­gi­na­ção como força polí­tica. Não basta mudar estru­tu­ras, é pre­ciso con­ce­ber alter­na­ti­vas. Por sécu­los, natu­ra­li­za­mos uma única ver­são do poder até ela pare­cer ine­vi­tá­vel. E natu­ra­li­za­mos tam­bém o lugar da mulher como ter­ri­tó­rio a ser ocu­pado. Por isso, afir­ma­mos: a for­mu­la­ção de novos ima­gi­ná­rios soci­ais é o antí­doto estru­tu­ral que está fal­tando no enfren­ta­mento à epi­de­mia de femi­ni­cí­dios. Não basta pro­te­ger mulhe­res da vio­lên­cia — é pre­ciso des­mon­tar a arqui­te­tura sim­bó­lica que a auto­riza. Isso exige inves­ti­mento deli­be­rado em movi­men­tos cul­tu­rais, nar­ra­ti­vas públi­cas e pro­du­ção sim­bó­lica que ampliem os hori­zon­tes sobre o papel das mulhe­res e des­na­tu­ra­li­zem a asso­ci­a­ção entre femi­ni­li­dade, sub­mis­são e espaço domés­tico. Com­ba­ter a vio­lên­cia salva vidas agora; trans­for­mar o ima­gi­ná­rio salva as pró­xi­mas gera­ções. As mulhe­res estão cri­ando outras lin­gua­gens, outros vín­cu­los, outros modos de exis­tir. Estão rees­cre­vendo, no corpo e na vida, o que sig­ni­fica ser mulher neste país. Nosso tra­ba­lho é garan­tir que essa rees­crita não tenha volta. A vio­lên­cia que tes­te­mu­nha­mos não é explo­são irra­ci­o­nal — é ten­ta­tiva de res­tau­ra­ção de uma ordem que se sente ame­a­çada. E encon­tra vali­da­ção em dis­cur­sos que natu­ra­li­zam a sub­mis­são femi­nina como des­tino, não como cons­tru­ção his­tó­rica. (*) Maria Alice Setubal é socióloga e educadora, presidente do CENPEC. Beatriz Della Costa é comunicadora e ativista social. Mariana Ribeiro é jornalista, com trajetória na cobertura de temas sociais, política e cidadania.



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