Caminhar na rua, pegar ônibus, trabalhar ou sair à noite. Situações corriqueiras da vida urbana escondem uma realidade incômoda para a maioria das mulheres: o assédio. Pesquisa divulgada nesta quinta-feira (5) mostra que sete em cada dez mulheres já sofreram algum tipo de assédio moral ou sexual, principalmente em ruas e espaços públicos.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos-Ipec revela que 71% das mulheres já sofreram assédio moral ou sexual. O estudo, que ouviu 3,5 mil pessoas em dez capitais brasileiras, aponta que ruas e espaços públicos são os principais locais de ocorrência, seguidos pelo transporte coletivo. A investigação também mostrou que 5% das entrevistadas sofreram assédio em todos os ambientes analisados. Entre as medidas consideradas prioritárias para enfrentar o problema, destacam-se penas mais severas para agressores e ampliação dos serviços de proteção às vítimas.
O dado faz parte do estudo “Viver nas Cidades: Mulheres”, realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec. O levantamento ouviu 3,5 mil pessoas em dezembro de 2025 nas capitais Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP).
Segundo a diretora de Opinião Pública e Política, Patrícia Pavanelli, o resultado revela que a sensação de insegurança faz parte da rotina feminina. “A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio”, afirmou durante o lançamento do estudo no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP.
Entre as 2.066 mulheres entrevistadas, 71% relataram ter sofrido assédio em pelo menos um dos seis ambientes analisados: ruas e espaços públicos, transporte coletivo, trabalho, ambiente doméstico, bares ou casas noturnas e transporte particular.
Para a pesquisadora, a cidade ainda é percebida como um espaço hostil. “O espaço público e o transporte público se destacam como os lugares mais hostis para as mulheres, sendo esse um problema recorrente e que limita nossa liberdade e o direito à cidade”, destacou.
Ruas lideram registros – Os espaços públicos, como ruas, praças, parques e praias, aparecem como o principal cenário de assédio, citados por 54% das mulheres. Na sequência aparecem: Transporte público: 50% Ambiente de trabalho: 36% Bares e casas noturnas: 32% Ambiente familiar: 26% Transporte particular (táxi ou aplicativo): 19% A pesquisa revela ainda que 5% das mulheres disseram ter sofrido assédio em todos os seis ambientes analisados.
“Pode parecer um número pequeno, mas estamos falando de mulheres que vivem em dez capitais que somam cerca de 33 milhões de habitantes”, observou Patrícia. Punição e proteção aparecem como prioridade Entre as medidas consideradas mais importantes para enfrentar o problema, a população aponta penas mais duras para agressores, citada por 55% dos entrevistados.
Outras ações destacadas foram: Ampliação dos serviços de proteção às vítimas: 48% Agilidade nas investigações: 37% Para Patrícia Pavanelli, os resultados indicam que a sociedade espera tanto justiça quanto suporte às vítimas. “A pesquisa mostra um desejo por punição, mas também revela a necessidade de uma rede de apoio mais robusta para as mulheres”, explicou.
Debate sobre punição – Especialistas, porém, defendem que o enfrentamento da violência de gênero não pode depender apenas do aumento de penas. A promotora Fabíola Sucasas, do Ministério Público de São Paulo, alerta que a solução não está apenas na punição. “Essa ideia de que o direito penal vai dar conta de tudo é uma visão patriarcal”, afirmou.
Ela lembra que o feminicídio já possui uma das penas mais altas do Código Penal, podendo chegar a 40 anos, e mesmo assim os casos continuam crescendo. “Isso não tem intimidado os agressores. Pelo contrário, o feminicídio tem aumentado, assim como o descumprimento de medidas protetivas.”
Insegurança dentro e fora de casa – Para Naiza Bezerra, coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo, os dados revelam um cenário preocupante.
“Muitas mulheres não estão seguras dentro de casa e, quando vão para a rua ou usam transporte público, enfrentam uma insegurança ainda maior.” Ela destaca que a rotina feminina muitas vezes é moldada pelo medo.
“Sair de casa calculando horário, pensando na volta, evitando chegar tarde ao bairro. Essa é uma realidade para muitas mulheres.” Desigualdade também dentro de casa A pesquisa também investigou como homens e mulheres percebem a divisão das tarefas domésticas. Para 39% dos entrevistados, as atividades da casa são responsabilidade de todos, mas acabam sendo realizadas majoritariamente pelas mulheres.
Outros 37% afirmaram que as tarefas são divididas igualmente. A percepção muda quando se analisa o recorte por gênero: 47% dos homens acreditam que as tarefas são igualmente divididas entre homens e mulheres; esse índice cai para 28%. Já 44% das mulheres afirmam que elas fazem a maior parte das tarefas domésticas, enquanto 32% dos homens reconhecem essa desigualdade.


