Idosa de 74 anos e filho ficaram amarrados por cerca de três horas dentro de casa
Uma idosa de 74 anos e o filho viveram cerca de três horas de terror durante um assalto dentro da casa onde ela mora sozinha desde os anos 1990, no Bairro Universitário, em Campo Grande. Durante a ação, criminosos armados amarraram as vítimas, fizeram transferências bancárias, realizaram empréstimos que somaram cerca de R$ 84 mil e ainda ameaçaram matar o cachorro da família.
Uma idosa de 74 anos e seu filho foram mantidos reféns por cerca de três horas durante um assalto em Campo Grande. Os criminosos, inicialmente dois homens armados, renderam as vítimas em sua residência no Bairro Universitário, amarrando-as e amordaçando-as com objetos encontrados na casa. Durante o crime, que contou com a participação de cinco pessoas, os assaltantes realizaram transferências bancárias e empréstimos totalizando R$ 84 mil. Dois veículos foram roubados, sendo que dois suspeitos foram posteriormente presos pela polícia: Lucélia Gonçalves Honório, 39 anos, e Felipe da Rocha Pinho, 18 anos. Os demais criminosos seguem foragidos.
A aposentada vive apenas com o cachorro Scoob. Ela e o filho conversaram com o Campo Grande News na manhã desta quinta-feira (12). A idosa contou que no fim da manhã desta quarta-feira (11), a casa estava sem energia elétrica e o filho foi até o local, como faz constantemente. Ao sair para verificar o quadro de luz, percebeu dois homens parados na esquina observando a rua. Naquele momento, pensou que não fosse nada.
O filho relata que quando terminou de verificar o problema e se virou para entrar na casa, foi surpreendido. “Eu me virei e eles apontaram o revólver na minha cabeça e me mandaram entrar”. Assim que entrou na residência, os criminosos também renderam a idosa. “Eles deram um mata-leão na minha mãe e jogaram ela no sofá, depois nos amarraram”.
Mãe e filho foram imobilizados com o que os assaltantes encontraram dentro da própria casa. Lençóis, roupas de cama, toalhas e até o fio de um ventilador foram cortados e usados para amarrar mãos e pés das vítimas. Os dois também foram amordaçados.
No início, apenas dois homens estavam dentro da residência. Eles falavam baixo e agiam de forma silenciosa, o que fez com que os vizinhos não percebessem o crime acontecendo. “Eles eram silenciosos. Ficavam xingando e pedindo dinheiro”, disse o filho da idosa.
Durante a ação, os criminosos pegaram a carteira dele e encontraram um documento relacionado ao registro de arma de fogo. A partir disso, as ameaças ficaram ainda mais intensas. “Eles começaram a perguntar onde estava a arma, onde estava o dinheiro”. Do dinheiro que ele tinha na carteira, os assaltantes levaram R$ 1,8 mil.
Durante cerca de duas horas, os criminosos permaneceram com o celular da vítima realizando operações bancárias. Sempre que era necessário fazer reconhecimento facial, eles retiravam a mordaça. Nesse período foram realizados empréstimos e transferências que somaram aproximadamente R$ 84 mil.
Enquanto mexiam no celular, os criminosos também acessaram redes sociais e passaram a perguntar onde estavam outros bens. Como ele mora em uma chácara, temeu que os bandidos o obrigassem a levá-los até o local. “Eu pensei: não posso levar eles porque vão me matar lá”. Com medo, começou a pensar em algum lugar para onde poderia levá-los caso fosse obrigado. “Eu fiquei pensando qual lugar levar eles, qual o mais próximo e que tivesse câmeras”. Ele chegou a pensar na casa da ex-esposa, na Avenida Guaicurus. Antes que isso acontecesse, porém, mais pessoas chegaram ao imóvel.
Segundo o relato, um casal e uma travesti entraram na casa, todos encapuzados, aumentando para cinco o número de envolvidos no assalto. Antes disso, os criminosos haviam ido até uma conveniência na esquina comprar cigarros. Dentro da casa, o grupo caminhava pela sala, conversava entre si, bebia água e chegou a comer alimentos que estavam na cozinha.
Em determinado momento, um deles sugeriu ligar a televisão para disfarçar o barulho da movimentação dentro da residência. A ideia acabou descartada porque a casa continuava sem energia elétrica. O cachorro Scoob, assustado com a presença dos estranhos, começou a latir. Foi nesse momento que surgiu a ameaça que deixou a idosa ainda mais desesperada. “Eu vou cortar o pescoço desse cachorro”, disse um dos criminosos.
A aposentada implorou para que não machucassem o animal. “É meu filho, ele dorme comigo no mesmo quarto, por favor não mata meu cachorro”. Para tentar acalmar a situação, o filho sugeriu aos criminosos que soltassem uma das mãos da mãe para que ela pudesse pegar o cachorro. “Solta uma mão dela e deixa ela pegar o cachorro”. Depois que a idosa segurou o animal, Scoob se acalmou e parou de latir.
Enquanto as vítimas continuavam amarradas, os criminosos permaneceram dentro da casa por horas, andando pelos cômodos e exigindo dinheiro e informações. Depois de cerca de três horas, o grupo decidiu ir embora levando dois veículos da família: o GM Celta vermelho e o VW New Beetle amarelo.
Um dos carros tinha câmbio manual e, ao sair com o veículo, a mulher que dirigia deu uma arrancada brusca. O barulho chamou a atenção de um vizinho, que naquele momento abria uma barbearia ao lado da casa. Mesmo ouvindo o carro sair, o filho da idosa preferiu esperar antes de tentar se soltar. “Meu maior medo era eles voltarem”.
Com uma das mãos presa de forma mais frouxa, ele conseguiu começar a se livrar da amarração. “Eu esperei até não ouvir mais movimentações, consegui me soltar e alcançar a tesoura que eles usaram para cortar os panos que nos amarraram e soltei os meus pés”. Depois de se libertar, saiu da casa e encontrou o vizinho que estava abrindo a barbearia. “Eu falei: alguém solta minha mãe”. Em seguida, ligou para um conhecido da polícia e relatou o que havia acontecido.
A esposa do barbeiro entrou na casa e ajudou a libertar a idosa. A vizinha, de 30 anos, contou que nunca tinha presenciado algo parecido. “Eu entrei e vi a senhora amarrada na cama, desesperada, então eu e meu marido ajudamos eles”. Para ela, a forma como o crime aconteceu indica que tudo pode ter sido planejado.
Ainda muito abalada, a aposentada contou que agora tem medo de continuar morando na casa onde vive há décadas. “Estou com medo de ficar aqui agora. Eles me amarraram, me machucaram e quiseram matar meu cachorrinho”. Segundo ela, em todos os anos que mora no local, nunca tinha passado por algo parecido. ““Eles pediam senha e eu falava ‘não sei, não sei’. Ele falou: ‘nem que você digite com a língua’.”
Ao lembrar do momento em que ficou rendido dentro da própria casa sem poder reagir, o filho da idosa se emocionou. “Eu já tinha sofrido assalto antes, mas dessa vez eu não podia fazer nada. Eles te xingando de vagabundo, de filho da puta, pedindo dinheiro e você só pode ficar quieto, sem ter o que fazer”, disse, chorando. Ele contou que costuma visitar a mãe várias vezes por dia. “Eu vou na minha mãe duas ou três vezes por dia, pelo menos”.
Após o crime, equipes da Polícia Militar foram informadas de que os veículos roubados seguiam pela BR-163 em direção ao distrito de Anhanduí. Durante diligências, os policiais visualizaram os carros retornando para Campo Grande e tentaram realizar abordagem, mas os motoristas fugiram.
Depois de alguns quilômetros de acompanhamento, o Celta foi interceptado. No veículo estavam Lucélia Gonçalves Honório, de 39 anos, que conduzia o carro, e Felipe da Rocha Pinho, de 18, que estava como passageiro. Dentro do automóvel, os policiais encontraram um aparelho de ar-condicionado, duas mochilas, uma antena Starlink e uma carteira pertencente à vítima. Durante a revista, também foram localizadas uma corrente de ouro com pingente e uma pulseira dourada.
O New Beetle foi encontrado posteriormente em uma estrada vicinal, abandonado após colidir contra uma cerca. Os ocupantes não foram localizados.
Segundo a polícia, Lucélia afirmou que mora em Goiânia e veio a Campo Grande no dia 3 de março após ser contratada para participar do crime e levar um dos veículos roubados até a fronteira pelo valor de R$ 3,5 mil. Já Felipe relatou que mora em Várzea Grande, em Mato Grosso, e teria recebido a promessa de R$ 1,5 mil para participar do roubo.
Conforme o registro policial, os dois estavam hospedados em uma pousada na cidade enquanto aguardavam a chegada de outros comparsas. O rapaz também afirmou que ele e outro suspeito seriam responsáveis por render as vítimas para permitir a entrada do restante do grupo. Os outros criminosos são procurados.
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