Previdência deve levar em conta desigualdades vividas por mulheres


Especialista afirma que decisões sem esse olhar podem reforçar injustiça de gênero histórica

Juliane Penteado Santana mostra livros sobre direito previdenciário (Foto: Divulgação)

Imagine uma mulher que passou a vida como dona de casa, mas contribuindo com a Previdência Social. Em determinado momento, ela recorre ao sistema e solicita aposentadoria por invalidez. No entanto, o perito responsável pela avaliação entende que, mesmo doente, ela ainda teria condições de continuar cuidando da casa. Situações como essa são comuns e, segundo a advogada previdenciarista Juliane Penteado Santana, revelam a necessidade de aplicar uma perspectiva de gênero na análise de benefícios.

A advogada previdenciarista Juliane Penteado Santana defende a necessidade de aplicar uma perspectiva de gênero na análise de benefícios previdenciários, considerando as desigualdades estruturais enfrentadas pelas mulheres. Em coautoria com Andreia Lima Cerqueira, ela aborda o tema no livro “Prática de Direito Previdenciário com Foco na Equidade de Gênero”.A especialista destaca que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou, em 2023, uma resolução orientando magistrados a considerarem questões de gênero nos processos judiciais. Ela argumenta que fatores como responsabilidades domésticas, trabalho informal e dificuldades na comprovação documental afetam especialmente as mulheres no acesso a benefícios previdenciários.

Para a especialista, muitas mulheres acumulam responsabilidades familiares e domésticas que precisam ser consideradas nas decisões previdenciárias, como o cuidado com os pais idosos ou filhos doentes. Quando esse contexto é ignorado, o sistema acaba reproduzindo desigualdades estruturais presentes na sociedade.

O tema é abordado por Juliane em coautoria com Andreia Lima Cerqueira de Hamburgo no livro “Prática de Direito Previdenciário com Foco na Equidade de Gênero – Aplicação na Advocacia Previdenciária à Luz do Protocolo do CNJ – Teoria e Prática”.

Segundo Juliane Penteado, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) lançou, em 2023, uma norma interna que posteriormente se tornou resolução com o objetivo de orientar magistrados a aplicarem a perspectiva de gênero na análise de processos judiciais. A diretriz parte do entendimento de que mulheres, historicamente, enfrentam situações de vulnerabilidade mais intensas.

A orientação prevê que julgadores identifiquem estereótipos e desigualdades estruturais presentes nos processos, especialmente em áreas que impactam diretamente a vida das mulheres. A medida vale para todas as áreas da Justiça e, na avaliação da advogada, também deve ser aplicada no Direito Previdenciário.

Juliane observa que, na área previdenciária, o Judiciário costuma se apegar à rigidez documental. No entanto, ela defende que, em muitos casos envolvendo mulheres, é necessário maior flexibilidade para compreender a realidade social.

Um exemplo recorrente em Mato Grosso do Sul, citado pela advogada, é o de mulheres que se mudam para fazendas onde o marido trabalha. Embora não tenham salário ou contrato formal, elas frequentemente desempenham atividades essenciais no local, como cozinhar, cuidar da casa e apoiar o trabalho rural.

Quando essas mulheres buscam a aposentadoria, muitas vezes não conseguem comprovar a atividade exercida, já que não possuem documentação formal. Nesse contexto, explica Juliane, é possível utilizar documentos do marido e testemunhos para comprovar o trabalho rural, já que ambos participavam da atividade.

De acordo com a advogada, essa situação reflete uma estrutura social histórica que não atribuía às mulheres a titularidade documental da atividade econômica, apesar de sua participação efetiva no trabalho agrícola.

Mesmo assim, ainda há resistência em reconhecer esse tipo de situação. Juliane defende que tanto o Judiciário quanto os advogados precisam ampliar o letramento sobre o tema para compreender e aplicar corretamente o protocolo de gênero.

No livro, a autora também destaca que a análise previdenciária deve considerar fatores como raça, classe social, idade e deficiência, já que diferentes formas de desigualdade podem se sobrepor e ampliar vulnerabilidades.

Mulheres negras, trabalhadoras informais ou idosas, por exemplo, podem enfrentar obstáculos ainda maiores para acessar benefícios previdenciários ou assistenciais. Por isso, segundo Juliane, compreender essas diferenças é fundamental para garantir uma análise mais justa em casos de benefícios assistenciais e por incapacidade.

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