Vivemos como atores de uma peça que nunca termina, trocando figurinos invisíveis ao longo do dia sem nem perceber. Acordamos e já escolhemos — ou somos escolhidos — para um personagem. Em casa, talvez sejamos o porto seguro, o apoio, a base silenciosa que sustenta o que ninguém vê. No trabalho, podemos ser a eficiência, a firmeza, a postura que não pode vacilar. Entre amigos, às vezes viramos leveza, ironia, consolo ou até a versão editada de quem realmente somos. E assim seguimos, costurando identidades provisórias para sobreviver aos cenários que atravessamos.
Não é falsidade. É sobrevivência emocional. É adaptação. É linguagem social. Aprendemos cedo que o mundo espera versões específicas de nós dependendo do contexto. Não falamos com um chefe como falamos com alguém que ama nossas vulnerabilidades. Não mostramos nossas fragilidades em ambientes que confundem sensibilidade com fraqueza. Não mostramos nossa força em lugares onde a força incomoda.
E, aos poucos, vamos dominando essa arte silenciosa de ajustar o tom da voz, o ritmo das palavras, a postura do corpo e até o tamanho dos nossos sonhos conforme o espaço que ocupamos naquele momento.
O problema não está em ter papéis. O problema começa quando esquecemos quem somos fora deles.
Porque existe um risco sutil e perigoso: quando passamos tanto tempo interpretando que o personagem começa a engolir o ator. Quando já não sabemos mais se somos naturalmente pacientes ou se apenas aprendemos que ser paciente evita conflitos. Quando já não sabemos se somos realmente fortes ou se só nunca tivemos permissão para desabar.
Representar papéis cansa. Cansa porque exige vigilância constante. Exige leitura de ambiente. Exige antecipar julgamentos. Exige medir emoções. Exige escolher o que mostrar e, principalmente, o que esconder.
E esconder pedaços de si, todos os dias, cobra um preço.
Mas também existe beleza nisso. Existe beleza na nossa capacidade absurda de adaptação. Existe beleza em sermos complexos o suficiente para ocupar múltiplos espaços sem nos quebrarmos completamente. Existe beleza em entender que identidade não é uma fotografia — é um movimento.
Somos filhos do contexto. Somos moldados pelas relações. Somos atravessados pelos lugares onde já estivemos. Cada versão que mostramos ao mundo nasceu de alguma necessidade: proteção, pertencimento, sobrevivência, amor, aceitação.
O perigo não está em mudar. O perigo está em desaparecer dentro das mudanças.
Talvez maturidade seja exatamente isso: aprender a representar papéis sem abandonar a essência. Ser profissional sem matar a sensibilidade. Ser forte sem perder a capacidade de sentir. Ser social sem se violentar. Ser necessário sem deixar de ser verdadeiro. Porque, no fim das contas, sempre existe um momento em que ficamos sozinhos. Sem plateia. Sem roteiro. Sem expectativa externa. E é nesse silêncio que a pergunta aparece, inevitável:
“Quem sou eu quando ninguém está olhando?”
E talvez a vida seja exatamente essa busca. Não por um “eu” fixo, imutável, rígido. Mas por um “eu” que, mesmo mudando de roupa, ainda reconhece o próprio corpo. Um “eu” que pode ser diferente sem se tornar estranho para si mesmo.
Nós vamos continuar representando papéis. Isso não vai mudar. A vida social exige isso. Relações exigem isso. Estruturas exigem isso.
Mas que, em algum lugar dentro de nós, exista sempre um espaço onde não precisamos performar. Onde não precisamos provar. Onde não precisamos caber.
Um lugar onde possamos simplesmente existir.
Porque o mundo já exige personagens demais.
E sobreviver, às vezes, é só não esquecer quem segura a máscara.
(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
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