Relatos de mulheres e opiniões machistas se misturam em enquete sobre assédio


Uma enquete realizada pelo Campo Grande News revelou que, das 348 mulheres participantes, 268 já sofreram algum tipo de assédio. A maioria dos casos, 146 relatos, ocorreu em espaços públicos, incluindo situações em transportes públicos, ruas e locais de trabalho.Entre os depoimentos, surgiram também comentários machistas que culpabilizam as vítimas, seja por suas vestimentas ou condição social. Especialistas alertam que esse tipo de pensamento contribui para desencorajar denúncias e perpetuar o ciclo de violência contra as mulheres.

Na enquete de ontem (6), o Campo Grande News perguntou: você, mulher, já foi vítima de algum tipo de assédio? Entre 348 respostas recebidas, 80 foram “não”.

As que já sofreram esse tipo de violência poderiam escolher o local onde ela ocorreu: no trabalho, em um espaço público ou na internet. A opção com mais respostas foi “sim, em espaços públicos”, com 146 votos.

Nas redes sociais, os comentários trouxeram relatos de assédio que são uma pequena amostra do que uma mulher está sujeita apenas por ser mulher:

– Bastante, principalmente quando me mudei para cá, mas diminuiu quando fiquei mais velha.

– Já aconteceu, tava indo para a igreja com meu filho na bicicleta e um homem bateu na minha bunda. Quase caí com meu filho. O homem estava de moto. Fiquei chocada, sem reação e a rua estava deserta. Nunca mais passei naquela rua, fiquei com medo.

– Eu, já. Uma vez, eu estava indo de moto pro serviço e um motoqueiro se aproximou e passou a mão na minha bunda. Me deu ‘mó’ medo.

– Eu também, já aconteceu.

– Já passei, mas quando eu estava no Uber, duas vezes. 

– Várias vezes já fui assediada. Emprego, na rua, na autoescola e em todas [as vezes] ninguém acreditou nem me ajudou, tive que ser minha própria ajuda. 

– No ponto de ônibus, dentro do ônibus lotado, no trabalho.

– Sim, na rua, no transporte público, no trabalho.

– Sim, era costume andar de bicicleta na [Avenida] Afonso Pena, desisti! 

– Várias vezes já aconteceu comigo.

– Sim, desde criança.

– Sim! É uma sensação horrível.

– Sim, muitos.

– Faz tempo, duas vezes no ônibus.

– Só dá para marcar uma opção [na enquete], mas tenho certeza que as mulheres, assim como eu, já sofreram as três opções.

Opiniões machistas – Em meio aos relatos impactantes de assédio, surgiram visões machistas com relação ao tema. Um dos comentários diz assim:

– Mas infelizmente acontece porque muitas mulheres não sabem se vestir com respeito e decência, a partir de que ela se valoriza e se veste com pudor, duvido os homens faltarem com respeito com elas. Essa é minha visão, eu penso assim.

O comentário revela que a mulher ainda precisa lidar com acusações equivocadas sobre ser a culpada pela violência praticada por homens. Se ocorresse apenas nas redes sociais, o problema seria menor: a questão é isso ser recorrente em delegacias, no Judiciário e dentro do próprio círculo de confiança da vítima, desencorajando denúncias e alimentando um ciclo de violência e mais discursos de ódio contra as mulheres.

Outras pessoas rebateram que o problema não é a roupa. Uma delas foi um homem que se comparou a uma mulher: “Eu corro sem camisa quase todos os dias no Parque das Nações Indígenas. Por que será que nunca sofri um abuso ou tentativa? Porque sou homem. Culpar a vítima pelo abuso é quase tão cruel quanto o próprio abuso”, respondeu.

Outro comentário machista expõe a ideia de que a mulher “interesseira” aceitaria receber assédio.

– Não estou aqui defendendo assédio, claro que não, jamais. Mas se for um cara com um baita carrão aí as coisas mudam.

Assédio moral e sexual são crimes. Para denunciá-los, vá até uma delegacia ou disque 180.

Mulher se aproxima da entrada da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Foto: Osmar Veiga/Arquivo)

A Central 180 funciona 24 horas, de graça, e a ligação pode ser anônima. Em caso de emergência, procure a polícia pelo 190. Violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer pessoa não pode ser silenciada.



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