Senado do Paraguai avança em julgamento de impeachment de Santiago Peña após crise do banco Ueno

Senado do Paraguai avança em julgamento de impeachment de Santiago Peña após crise do banco Ueno


Paraguai

Presidente não compareceu à sessão e foi representado por advogados. Escândalo financeiro deixou quase 3 milhões de clientes sem acesso às contas e provocou protestos em Assunção

O Senado do Paraguai avançou nesta sexta-feira (6) no julgamento político do presidente Santiago Peña, em meio à crise provocada pelo colapso do banco Ueno. Os parlamentares aprovaram, por unanimidade, com 41 votos favoráveis, o recebimento das provas apresentadas pela acusação, permitindo a continuidade do processo que pode resultar na destituição do chefe do Executivo.

Peña não compareceu à sessão no Congresso e foi representado pelos advogados Ricardo Preda e Adolfo Ferreiro. A defesa tentou suspender o julgamento, alegando que o presidente não teve tempo suficiente para analisar as acusações e os documentos apresentados. O pedido de adiamento por 72 horas, porém, foi rejeitado pelos senadores.

O processo foi aberto após denúncias de supostas irregularidades envolvendo o banco Ueno, instituição que administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo cerca de US$ 355 milhões vinculados ao Instituto de Previdência Social (IPS) paraguaio.

O Banco Central do Paraguai interveio na instituição após identificar problemas de solvência. A medida provocou o bloqueio das contas de aproximadamente 3 milhões de clientes, que ficaram temporariamente sem acesso às economias, transferências e serviços bancários.

As acusações contra Peña envolvem possíveis conflitos de interesse e uso de influência política para favorecer a instituição financeira. O presidente manteve participação societária no Grupo Vázquez, conglomerado empresarial controlador do Ueno, até março de 2025, mesmo depois de assumir a Presidência do país, em agosto de 2023.

Os parlamentares também questionam a concentração de recursos públicos no banco e os depósitos realizados pelo Instituto de Previdência Social, que teriam ultrapassado os limites legais.

Defesa nega irregularidades

Durante a sessão, os advogados de Peña contestaram as acusações de enriquecimento ilícito e interferência indevida no Instituto de Previdência Social. Segundo a defesa, a Controladoria-Geral da República, órgão responsável pela fiscalização dos bens de funcionários públicos, já teria descartado irregularidades patrimoniais envolvendo o presidente.

Os representantes também argumentaram que a denúncia apresentada pela Câmara dos Deputados não apresenta elementos concretos que comprovem uma suposta interferência de Peña nas decisões administrativas do instituto. A defesa questionou a ausência de identificação de pessoas com quem o presidente teria conversado ou de funcionários que teriam recebido instruções ilegais.

Os advogados ainda sustentaram que o Congresso deveria ter analisado a carta de renúncia apresentada por Peña na quinta-feira (5), em vez de dar continuidade ao julgamento político.

A renúncia, entretanto, não foi aceita pelo Legislativo, e o processo de impeachment prosseguiu. O presidente também é alvo de investigação do Ministério Público paraguaio sobre seu possível envolvimento no escândalo financeiro.

Protestos tomam as ruas

A crise política ultrapassou os limites do Congresso e chegou às ruas de Assunção. Manifestantes se concentraram na região central da capital para exigir a responsabilização dos envolvidos no colapso do Ueno e a devolução dos valores retidos dos clientes.

Os protestos foram marcados por confrontos com as forças de segurança, que utilizaram balas de borracha e gás de pimenta para dispersar manifestantes. A revolta também atingiu funcionários públicos e aposentados, que temem prejuízos aos recursos destinados à previdência.

O julgamento ocorre em meio ao enfraquecimento político de Peña, que perdeu apoio de importantes aliados do Partido Colorado. A decisão final do Senado poderá definir o futuro do governo e os desdobramentos políticos da crise financeira no Paraguai.



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