Nas mãos, ela levava peças de roupas nas cores rosa e pink que pertenciam a Gabriella
Uma mulher trans, identificada como Gabriella dos Santos, morreu após ser atingida por três tiros disparados pela Polícia Militar durante uma abordagem no Centro de Campo Grande. O incidente ocorreu quando Gabriella pegou a arma de um policial que caiu e a apontou para a equipe, resultando na reação fatal de outro agente. Amigos relatam que Gabriella, que completaria anos no dia do ocorrido, estava prestes a iniciar um novo emprego através do Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho. O caso gerou manifestações da Associação das Travestis e Transexuais de MS, que classificou o episódio como “extermínio”, enquanto a Associação dos Militares defendeu a ação como técnica e proporcional.
“Mas será que precisava de três tiros? Só um spray de pimenta desmaiava ela, se fosse necessário, um tiro na perna. Mas não matava minha irmã. Era uma vida”. A pergunta “martela” na cabeça de uma mulher, de 28 anos, que não quis se identificar, ao reviver a morte de Gabriela dos Santos.
A mulher trans de 27 anos morreu na tarde de segunda-feira (dia 16), no Centro de Campo Grande, nas proximidades da Praça Santo Antônio, área conhecida pela presença de usuários de droga. Em meio a tumulto durante abordagem da PM (Polícia Militar), a arma de policial caiu e foi apanhada por Gabriela, que a apontou na direção da equipe.
Na sequência, outro policial efetuou disparos. Os tiros atingiram peito, abdômen e perna. Ela foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros, mas morreu na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Bairro Coronel Antonino.
Na manhã desta terça-feira, de volta à esquina da Avenida Calógeras com a Rua 15 de Novembro, local da abordagem, a amiga de Gabriela rememorou os três anos em que conviveram por boate, ruas, calçadas e centro de acolhimento. Ela conta que hoje era o aniversário da amiga morta.
Numa homenagem póstuma, a mulher usava um boné cor de rosa. Nas mãos, levava peças de roupas nas cores rosa e pink que pertenciam a Gabriela. A amizade começou numa boate de Terenos, a 31 km de Campo Grande. Ela conta que a amiga era dependente, principalmente de álcool, e se tornava violenta quando bebia.
“Mas toda vez que bebia ficava louca, queria bater em todo mundo. Mas não era sempre assim. Ela tinha passado num emprego e ia começar a trabalhar. Era a única mulher trans da lista”.
A amiga acredita que o emprego era na seleção do Primt (Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho) e o trabalho seria no setor de limpeza.
“Além de uma usuária de drogas, a Gabi era nossa irmã. Ela era uma pessoa amável. Quando estava sóbria era uma pessoa educada. Ela nunca ia gritar com você se chegasse nela. Nunca ia te agredir. As pessoas têm uma visão muito errada de quem vive na rua”.
Gabriela dos Santos será sepultada na tarde de hoje, em Terenos. “Mas queria ter a chance de me despedir dela, de ir ao velório, de dar uma morte digna a ela”.
O caso foi registrado, entre outros pontos, como morte decorrente de intervenção de agente do Estado. Durante a ocorrência, o soldado envolvido sofreu escoriação próxima ao nariz e arranhão no punho esquerdo. A perícia recolheu as armas dos policiais envolvidos e outras três pessoas foram levadas à delegacia por desobediência e desacato.

Extermínio e técnica – A ATTMS (Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul), por meio de nota assinada pela coordenadora interina, Manoela Kika Rodrigues Veiga, classificou o caso como “extermínio” e cobrou apuração séria, técnica e imediata por parte do Ministério Público Estadual e demais órgãos competentes.
A ACSMP (Associação e Centro Social dos Militares e Pensionistas) de Mato Grosso do Sul manifestou apoio aos militares envolvidos e classificou a reação como técnica e proporcional.
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