O show do intervalo do Super Bowl comandado por Bad Bunny em 2026 não foi apenas um espetáculo musical, foi um acontecimento cultural e histórico que refletiu um dos momentos mais delicados e debatidos da história recente dos Estados Unidos. Em um período marcado por discussões intensas sobre imigração, identidade nacional e pertencimento, aquela apresentação ultrapassou o entretenimento e se transformou em um símbolo poderoso de afirmação cultural e humana. Mais do que música, foi um recado claro de que imigrantes e comunidades latinas não são um detalhe dentro da história americana, mas parte essencial dela, parte viva, pulsante e impossível de ser apagada.
O show já carregava peso histórico antes mesmo de começar. Ver um artista latino, cantando em espanhol, ocupando sozinho o palco principal do maior evento esportivo dos Estados Unidos, representou uma quebra de paradigma cultural. Em um país construído por ondas de imigração, mas que ainda luta internamente com a ideia de quem pertence ou não ao seu território simbólico, aquela escolha artística falou mais alto do que qualquer discurso político. Foi uma afirmação silenciosa, mas impossível de ignorar: a América é plural, é mestiça, é feita de muitas línguas, muitas histórias e muitos rostos.
O impacto do show se torna ainda mais profundo quando colocado dentro do contexto atual dos Estados Unidos. O país vive uma fase de forte polarização política, com debates acalorados sobre políticas migratórias, deportações, controle de fronteiras e identidade nacional. Em muitos discursos políticos e midiáticos, imigrantes são tratados como problema, estatística ou ameaça, raramente como pessoas, como famílias, como trabalhadores, como sonhos tentando sobreviver. E foi exatamente isso que o show quebrou. Em vez de discutir imigração como conceito, ele mostrou cultura, mostrou identidade, mostrou orgulho, mostrou humanidade.
Ao trazer símbolos de diferentes países das Américas, ao destacar a cultura porto-riquenha, ao reforçar a ideia de que América não é apenas os Estados Unidos, mas um continente inteiro, o espetáculo trouxe uma mensagem simples e poderosa: pertencimento não é algo que pode ser definido apenas por fronteiras políticas. Pertencimento nasce da contribuição, da presença, da construção diária de uma sociedade. E os imigrantes fazem isso todos os dias, silenciosamente, trabalhando, criando, pagando impostos, construindo negócios, criando filhos, sustentando economias locais.
Talvez o gesto mais forte do show tenha sido justamente humanizar aquilo que muitas vezes é tratado de forma fria e distante. Mostrar trabalhadores comuns, mostrar a vida cotidiana da comunidade latina, mostrar alegria, música, família, tradição. Porque quando você vê a cultura de alguém celebrada, você deixa de enxergar aquela pessoa como número e passa a enxergar como ser humano. E é exatamente isso que sociedades saudáveis fazem: reconhecem humanidade antes de qualquer rótulo.
A reação dividida que o show gerou só reforça sua importância histórica. Alguns celebraram como um marco de inclusão e representatividade. Outros criticaram, dizendo que o evento foi político demais. Mas talvez a verdade seja justamente essa: em momentos de tensão social, existir já é político. Mostrar cultura já é político. Cantar na própria língua já é político quando essa língua foi historicamente colocada como inferior ou estrangeira dentro de certos espaços.
O show não tentou agradar todo mundo, e talvez esse nunca tenha sido o objetivo. Ele existiu para marcar presença, para ocupar espaço, para lembrar que cultura não pede licença para existir. E isso, em um momento em que discussões sobre imigração muitas vezes ignoram o lado humano, foi um gesto de enorme peso simbólico.
Mais do que tudo, o show trouxe uma mensagem urgente para o mundo atual: imigrantes não podem ser tratados como descartáveis. Não podem ser vistos apenas como força de trabalho barata ou como problema político conveniente. São pessoas que carregam histórias, culturas, memórias e sonhos. São pessoas que constroem países, que movimentam economias, que enriquecem culturas. Ignorar isso não é apenas injusto, é historicamente errado.
Esse show entra para a história porque mostrou que cultura pode ser resistência, que arte pode ser posicionamento e que música pode ser uma ponte entre mundos que insistem em se enxergar como opostos. Em um palco assistido por milhões de pessoas, durante alguns minutos, ficou impossível fingir que os Estados Unidos são uma história de um único povo, de uma única língua ou de uma única cultura.
Talvez, no fundo, a maior mensagem tenha sido simples e profunda ao mesmo tempo: dignidade não deveria depender de documentos, sotaques ou origem. Dignidade deveria ser o ponto de partida de qualquer sociedade que se diz moderna. E naquele show, entre luzes, música e dança, essa mensagem foi entregue ao mundo inteiro — não como discurso político, mas como verdade humana.
(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
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