Jacarezinho: Faltou planejamento e inteligência em operação, dizem especialistas

A operação policial no Jacarezinho, que resultou em 25 mortes nesta quinta-feira – incluindo a de um policial civil -, rendeu questionamentos por parte de especialistas e alertas de entidades ligadas aos direitos humanos. Ex-secretário nacional de Segurança Pública, o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho criticou o planejamento e disse que não foram levados em consideração o potencial de reação dos bandidos e a segurança da população.

— Não importa que (os mortos) sejam bandidos ou não. Nesse caso, morreu um policial. É uma operação mal planejada. Nunca vi em nenhum lugar uma operação com tamanha quantidade de mortos; me parece uma operação lá no Afeganistão — afirmou o coronel.

Os rastros de mortes em operações policiais no Rio estão no centro do debate da segurança pública do estado há muito tempo. Mas, em 2020, com a pandemia, o ministro Édson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que as ações fossem suspensas e só acontecessem em casos excepcionais. Após a ação no Jacarezinho, o conceito de quais seriam as condições para “excepcionalidades” mobilizou várias entidades.

A Human Rights Watch do Brasil pediu que o Ministério Público do Rio faça uma investigação minuciosa e independente para apurar o que de fato aconteceu na comunidade. A entidade observou que, apenas no primeiro trimestre deste ano, a polícia do Rio matou 453 pessoas, e ao menos quatro policiais morreram em confrontos – um número que não condiz com a ordem do STF. Entre outros pedidos de perícia, o comunicado pede que o MP garanta que “as armas de suspeitos e da polícia sejam entregues de forma imediata” para o exame balístico.

O procurador-geral de Justiça, Luciano Mattos, comunicou que as forças policiais do estado informaram ao órgão sobre a operação por volta das 9h e que o Grupo Temático do MP vai atuar na investigação para saber se houve descumprimento da ordem do STF.

— A população pode ficar tranquila que a investigação será realizada com todos os critérios. Se for constatado abuso, será instaurado um inquérito criminal — disse o procurador-geral.

A Defensoria Pública, por sua vez, afirmou que constatou flagrantes descumprimentos dos direitos humanos, que já está colhendo depoimentos de moradores da comunidade e que vai levar o caso ao conhecimento do Supremo.
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Pesquisador de segurança pública da UFRJ, Michel Misse observou que, além de contrariar a decisão da Corte, que referendou no plenário a liminar de Fachin, a Polícia Civil está sendo acusada por moradores de ter executado suspeitos que teriam se rendido.

— A operação em si mesma é inadequada, nas condições de pandemia e em desrespeito à decisão do Supremo Tribunal Federal. Além do mais, uma operação em que morrem 25 pessoas, entre elas um policial, não pode ser considerada bem-sucedida. Uma operação bem-sucedida é a que você prende os suspeitos, os leva a julgamento e esclarece a ocorrência. Nesse caso, não houve nada disso. Só há mortos — criticou.

Já Vinicius Cavalcante, diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança, considera menos ruim que as baixas tenham sido entre suspeitos do que entre policiais ou inocentes. Ele argumenta que, diante do forte poderio bélico dos criminosos, não tinha como ser diferente:

— Estamos vivendo uma época em que os criminosos não respeitam mais as forças de segurança. Agora, graças à superioridade bélica deles, não se acovardam e estão ali para matar ou morrer. Nesse caso, espero que a polícia mate e não que morra.

Para o diretor da Ford Brasil e ex-diretor da Anistia Internacional, Atila Roque, o episódio precisa ser devidamente esclarecido. Ele comparou a situação do Jacarezinho a de chacinas como de Vigário Geral, em 1993, e da Baixada Fluminense, em 2005:

— Foi uma verdadeira chacina.