Parentes afirmam que laudos psicológicos, teste de arma e prontuário seguem sem liberação
Quatro meses após a morte do recruta Dhiogo Melo Rodrigues, de 19 anos, ocorrida em 27 de outubro do ano passado dentro das dependências do CMO (Comando Militar do Oeste), em Campo Grande, a família afirma que ainda não teve acesso a documentos considerados essenciais para o esclarecimento do caso.
O recruta Dhiogo Melo Rodrigues, de 19 anos, morreu em outubro de 2023 nas dependências do Comando Militar do Oeste, em Campo Grande. Quatro meses após o incidente, sua família ainda não teve acesso a documentos essenciais para o esclarecimento do caso, incluindo o Inquérito Policial Militar e laudos psicológicos. O jovem, que havia ingressado no Exército três meses antes de sua morte, foi encontrado com um disparo de fuzil na cabeça durante serviço de guarda. Familiares relatam que ele manifestava descontentamento com o serviço militar e sofria ofensas no quartel, além de não ter recebido adequado acompanhamento psicológico.
Segundo os familiares, não foram disponibilizados o IPM (Inquérito Policial Militar), os laudos psicológicos individuais, os testes de aptidão para manuseio de arma de fogo compatíveis com o calibre utilizado e o prontuário médico completo.
O caso envolve morte sob custódia do Estado, circunstância que, conforme entendimento consolidado do STF (Supremo Tribunal Federal) e do STJ (Superior Tribunal de Justiça), impõe ao poder público dever reforçado de transparência, apuração rigorosa e prestação de informações aos familiares.
Apesar da instauração de procedimentos internos e do acompanhamento pelo Ministério Público Militar, a família relata que, passados quatro meses, não recebeu acesso efetivo aos autos nem às provas já produzidas. Também aponta resistência institucional na liberação do prontuário médico e ausência de esclarecimentos formais sobre a aptidão psicológica e técnica do recruta para o serviço armado.
No mês passado, o CMO concluiu o Inquérito Policial Militar, mas, segundo informou a família na época, não apresentou o laudo que comprove a aptidão psicológica individualizada do militar para o porte de armamento. Os familiares afirmam ainda que, mesmo diante de sinais claros de sofrimento psíquico, o jovem não recebeu acompanhamento psicológico efetivo dentro do quartel.
Na manhã desta sexta-feira, em conversa com o Campo Grande News, o irmão do recruta reforçou que, apesar da conclusão do Inquérito Policial Militar pelo CMO no mês passado, a família segue sem acesso aos autos.
“O que nos chama atenção não é apenas a tragédia em si, mas o que veio depois. Já se passaram quatro meses e a minha família ainda não teve acesso ao inquérito policial militar. Esses documentos são básicos em qualquer apuração de morte sob custódia do Estado. Não estamos fazendo acusações. A ausência de transparência prolongada levanta questionamentos legítimos sobre a condução da investigação e sobre por que informações essenciais ainda não foram apresentadas”, afirmou.

Histórico e morte – Quando morreu, Dhiogo havia ingressado apenas três meses no Exército Brasileiro. Segundo a família, desde o início ele manifestava que não queria continuar no serviço militar.
“Em sua formatura, ele já se queixava muito. Minha mãe chegou a solicitar ao comandante a sua dispensa, mas nada foi feito, nem ao menos o remanejamento para outra área”, relatou o irmão à reportagem na época.
De acordo com os familiares, o jovem não teria sido submetido a teste psicológico específico para o manuseio de armas de fogo de alto calibre. O irmão afirma que o recruta relatava sofrer ofensas de caráter vexatório dentro do quartel. “Ele dizia que sofria muito lá. Se reclamasse, seria ainda mais cobrado. Era chamado de burro e quem o ajudava eram os próprios colegas de pelotão. Todos viam que ele não tinha condições”, declarou.
O soldado foi encontrado morto com um disparo de fuzil na cabeça enquanto estava de guarda em um posto do CMO, na Avenida Duque de Caxias, em Campo Grande.
Ainda segundo o irmão, o corpo foi removido sem a realização de perícia no local, o que, na avaliação da família, contraria protocolos básicos de apuração. Inicialmente, conforme os parentes, houve tentativa de encaminhamento ao SVO (Serviço de Verificação de Óbito), procedimento que poderia limitar a investigação. Após insistência da família, o corpo foi levado ao Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal), onde foi realizada a necropsia.
A reportagem solicitou posicionamento do CMO sobre a denúncia de ausência de laudo e sobre o inquérito, e aguarda retorno.









