Estupro coletivo como ato terrorista

Avião comercial de passageiros colide contra enorme torre de complexo empresarial. Todos conhecemos essa cena – seguida, pouco depois, de outro impacto – e podemos imaginar a perplexidade de quem, de uma calçada em Nova York, olhava para cima e via o prédio em chamas. Em princípio, era impossível saber se tal imagem de horror...


Avião comercial de passageiros colide contra enorme torre de complexo empresarial. Todos conhecemos essa cena – seguida, pouco depois, de outro impacto – e podemos imaginar a perplexidade de quem, de uma calçada em Nova York, olhava para cima e via o prédio em chamas. Em princípio, era impossível saber se tal imagem de horror resultava de um problema técnico, uma falha humana ou um ato suicida. Perguntamos: o que permitiu afirmar, a posteriori, que tal episódio deveria ser reconhecido como uma ação terrorista? Foram os alvos civis? O efeito surpresa? A martirização dos agressores? Pode-se responder sim a cada uma dessas questões, porém, ainda assim, não teríamos a conclusão principal: o ato violento se converte em ação terrorista apenas após um ato de fala. É preciso que o agressor (ou seu grupo) realize um “ato ilocutório” (conforme Austin e Searle, para quem o uso da linguagem constitui um tipo de ação), é preciso que ele reivindique publicamente o ato brutal em nome de sua causa.

Se não entendemos a centralidade da linguagem nos atos do terror, não seremos capazes de compreender a gravidade do vínculo entre ação e discurso no deplorável episódio ocorrido na capital fluminense em janeiro passado, em que quatro rapazes foram acusados de praticar estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos. A frase estampada na camiseta que um dos acusados trajava ao se entregar às autoridades (“Regret nothing”, ou, em tradução livre, “Não se arrependa de nada”), uma vez comprovado o crime, inscreve-o em uma lógica de violência com pretensão política: sugere a adesão a um repertório discursivo que ultrapassa o ato individual e o projeta como gesto alinhado a uma causa, funcionando como expressão de uma violência covarde e misógina.

“Faço o que eu falo”

Os estudiosos da análise do discurso dedicam-se a investigar a construção e a manifestação das ideologias por meio dos textos. Entendendo a linguagem como uma espécie de “zona do combate”, analisam de que maneira os enunciados (ou “textos”) veiculam visões de mundo, validando umas e refutando outras. Recorrendo à noção de dialogismo, central na perspectiva bakhtiniana, os textos estão em constante conversa, por se responderem continuamente. Quando um enunciador machista verbaliza algo como “As mulheres hoje em dia estão pensando que podem tudo”, seu texto reage a discursos igualitários que reafirmam direitos e capacidades femininas.

Compreendendo os textos como artefatos de uma espécie de “arena discursiva”, em que visões e valores estão constantemente em disputa, a mensagem “Regret nothing” é mais grave do que parece. É claro que, mesmo em uma análise mais superficial, parece pouco inteligente que um acusado, entregando-se à polícia, ostente a legenda “não se arrependa de nada”, uma vez que o próprio verbo “arrepender-se” confessa a realização de um ato digno de reprovação (a menos que fosse um valente réu confesso, mas não é o caso). Só é possível debater o arrependimento assumindo que a ação foi consumada. No entanto, esse é dos males o menor: a gravidade aumenta quando a relação intertextual nos leva à chamada “machosfera”.

Nesse universo, o enunciado em questão, conforme se noticiou amplamente, é associado ao ex-lutador profissional de kickboxing e agora “influenciador” Andrew Tate. Famoso coach red pill, Tate é réu pelos crimes de tráfico humano, estupro e pela formação de um grupo criminoso para explorar mulheres sexualmente. A esse extenso currículo, somam-se 11 milhões de seguidores em uma afamada rede social. Em suas mídias, o discurso parece coerente com as acusações de que o réu se defende: além de ostentar uma vida luxuosa, o influencer advoga a superioridade masculina e a subjugação das mulheres. Sem arrependimentos.

Dada a ampla repercussão do episódio ocorrido no Rio de Janeiro, é ingênuo pensar que o acusado, ao decidir se entregar, não sabia que seria amplamente fotografado pelos fotojornalistas. Desse modo, é difícil não inferir que, em vias de se tornar réu por estupro (tal como o famigerado coach), o rapaz escolheu vincular sua ação ao ideário misógino em questão.

Combater o terror é urgente

Quando escolheu ostentar o lema red pill, em um momento de alta visibilidade midiática, o acusado identificou-se como membro de um grupo, como representante de um movimento, de uma comunidade que se apresenta como detentora de uma verdade oculta sobre as relações de gênero, segundo a qual as mulheres seriam um grupo homogêneo, definido por traços psicológicos e comportamentais negativos, naturais e imutáveis. No discurso dessa comunidade, as mulheres são interesseiras, manipuladoras, moralmente inferiores e dignas de serem combatidas. Essa “verdade”, contudo, estaria acessível aos poucos que ingeriram a “pílula vermelha” (em alusão ao filme Matrix), numa retórica da revelação (do “acordar”, “ver a realidade”) que produz uma identidade coletiva baseada na oposição entre os que “sabem” (red pill) e os que estariam enganados pela sociedade (blue pill).

O tema não é novo: produções audiovisuais como a série Adolescência e o documentário Por dentro da machosfera desempenham o relevante papel de trazer essa questão para a esfera pública. É importante, mas é pouco. Urge um esforço internacional para erradicar o discurso masculinista, que não reconhece fronteiras, sem receio dos oportunistas que tratarão como mera “censura” tais ações de combate ao crime.

Voltando ao episódio das Torres Gêmeas, com que abrimos o artigo, lembramos a centralidade do ato de fala na ação terrorista. No episódio carioca, não se pode concluir o mesmo? Ao se comprovar a participação do ora réu no estupro coletivo, parece relativamente simples perceber que, em sua performance, ostentar a mensagem “Regret nothing” é uma forma de politizar o crime cometido (aliás, revelou-se depois que o mesmo jovem responde a dois processos por estupro e, além disso, suspeita-se de que seu grupo tenha feito mais vítimas).

O ato ilocutório do acusado, ao reafirmar o lema masculinista, sugere então que, além do estupro contra aquela vítima específica, perpetrou-se uma violência contra o gênero feminino, contra os discursos de igualdade de gênero, contra a ideia de “ser mulher” e, no limite, contra a vida das mulheres. O ato linguístico não aponta para um avião chocando-se casualmente contra uma torre, mas para o terror chocando-se contra a ideia de civilização.

(*) Henrique Braga, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP

 

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