Esclarecedor, elucidativo e, ao mesmo tempo, extremamente preocupante é o levantamento Medo do Crime e Eleições 2026: os gatilhos da insegurança, realizado pelo Instituto Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A pesquisa aponta que mais de 41% dos brasileiros reconhecem a presença de facções criminosas ou milícias em seus bairros, ou seja, convivem diariamente com o crime nas vizinhanças. Cerca de 61% dos entrevistados afirmam que o crime organizado exerce influência moderada ou forte sobre as decisões e regras de convivência locais. Em suma, as pessoas estão literalmente amedrontadas.
O estudo acabou revelando apenas aquilo que já é de domínio público, sem trazer nada de surreal, mas evidenciando uma sociedade sofrida, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também nas cidades médias e pequenas do interior, em razão da ineficiência do poder estatal, caracterizando o fenômeno da interiorização da criminalidade.
É notório que as organizações criminosas não conseguem crescer sem a corrupção de agentes públicos.
A pesquisa revela o olhar da sociedade e o seu grito por mais segurança. Há muito tempo as autoridades não conseguem enfrentar o crime organizado com eficiência e proporcionar aos cidadãos a tão desejada sensação de segurança.
O Estado, detentor do monopólio do uso da força e do direito de punir, precisa cumprir seu dever constitucional. Em algumas cidades, as autoridades são incapazes de mapear a atuação das facções, algo que qualquer cidadão que ali vive consegue identificar facilmente.
Nos anos eleitorais, surgem soluções mágicas que propõem, basicamente, o endurecimento da lei penal e a aquisição de viaturas, geralmente apresentadas à sociedade em grandes desfiles pelas ruas das cidades.
Os anos eleitorais são pródigos em produzir debates que apontam soluções para a segurança pública. Porém, logo em seguida, tudo volta ao normal, e continuamos convivendo com regiões totalmente dominadas por facções, sem que haja uma ação contundente e vigorosa para combatê-las.
Na tentativa de enfrentar esse cenário, o governo federal lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado, alicerçado em quatro eixos: enfrentamento ao tráfico de armas, asfixia financeira do crime organizado, aumento das taxas de esclarecimento de homicídios e reforço da segurança prisional. A principal medida é a implantação de um padrão de segurança máxima em 138 unidades prisionais consideradas estratégicas.
O programa depende da adesão dos governos estaduais para garantir acesso aos recursos. Também prevê a coordenação das ações contra as organizações criminosas e o fortalecimento das polícias científicas e da perícia nos estados, visando aumentar a taxa de resolução de homicídios. Vale ressaltar que, no que se refere à resolutividade dos homicídios, nosso Estado apresenta excelente desempenho, fruto do trabalho conjunto da Polícia Militar, da Polícia Civil e da perícia.
É visível que as polícias estaduais, que estão na linha de frente do combate à criminalidade, evoluíram em estrutura, capacitação de seus integrantes e na prestação de serviços. Atribuo esses avanços à forte pressão da sociedade, que exige cada vez mais segurança.
O descaso com a segurança pública é histórico, até porque o país ainda não conseguiu superar problemas que remontam à sua formação, como a enorme concentração de renda, o preconceito e a discriminação, entre outros fatores.
Espero que o Brasil supere definitivamente essa etapa de sua história, sem retórica e sem bravatas, mas com pragmatismo e ações concretas. Já passou da hora de o país priorizar a segurança pública e adotar uma gestão pública orientada por resultados, pois ela está intrinsecamente ligada à economia, ao desenvolvimento e à qualidade de vida dos brasileiros.
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