Terezinha venceu câncer, covid e dor diária com um sorriso inacreditável

Aos 77 anos, ela diz que a saída é nunca se entregar, apesar das limitações físicas Nem as dores tiram de Terezinha a vontade de viver longe das tristezas (Foto: Juliano Almeida) Terezinha de Jesus Garcia Ferreira anda devagar. As pernas doem e, sem as muletas, fica difícil dar muitos passos. Mas não existe problema...


Aos 77 anos, ela diz que a saída é nunca se entregar, apesar das limitações físicas

Nem as dores tiram de Terezinha a vontade de viver longe das tristezas (Foto: Juliano Almeida)

Terezinha de Jesus Garcia Ferreira anda devagar. As pernas doem e, sem as muletas, fica difícil dar muitos passos. Mas não existe problema neste mundo capaz de fazê-la perder o sorriso. Aos 77 anos, ela insiste em se apoiar nas paredes, nos móveis e dar uma banana para qualquer dor no corpo. E, como se não bastasse, ainda resolveu estrear no cinema em 2026.

Terezinha de Jesus Garcia Ferreira, de 77 anos, encontrou na trova e no cinema uma forma de superar as limitações impostas por uma inflamação generalizada nos músculos. Moradora de Campo Grande, ela estreou como atriz no curta-metragem “A Trovadora e a Poeta”, do diretor Marcus Teles, interpretando uma versão de si mesma. Conhecida como Terezinha Pantaneira, ela também integra o grupo de teatro da faculdade da terceira idade da UFMS.

Batizada por ela mesma como Terezinha Pantaneira, a atriz passa os dias criando o que mantém o cérebro ativo e os problemas menores: a trova e, mais recentemente, o teatro e o cinema. Em maio, estreou como atriz no curta-metragem “A Trovadora e a Poeta”, do diretor Marcus Teles.

“Me identifiquei. Encontrei no Facebook um grupo chamado Amantes da Trova, onde a maior parte era cega de nascença. Comecei a acompanhar esse povo, entender de trova, que não é fácil. Neste grupo entraram mais duas Terezinhas e eu tive que me diferenciar. Aí ficou Terezinha Pantaneira, a gaúcha e a paulista”.

Terezinha venceu câncer, covid e dor diária com um sorriso inacreditável
Aos 77 anos, ela já venceu câncer, covid e uma doença muscular e diz que a saída é nunca se entregar (Foto: Juliano Almeida)

Ela se apaixonou pela arte da rima e explica que há 4 linhas e que elas precisam ter 7 sílabas, sendo a última de cada frase tônica. A primeira tem que rimar com a 3ª e a 2ª com a 4ª.

“É uma grande forma de desenvolver o cérebro. Está muito difícil viver do jeito que eu vivo porque sempre fui independente e liberal. Eu ocupo meus desesperos e tristezas fazendo trova. Xingo e faço uma trova para transformar em uma situação lírica e vou levando a vida. Faço trova de homenagem aos parentes e amigos e para brigar com o mundo porque ele não está fácil”.

Com diagnóstico de inflamação generalizada dos músculos, Terezinha não tem firmeza para segurar as coisas, nem sustentar as pernas por longos períodos, por isso usa cadeira de rodas para se locomover na rua.

“A minha limitação só não é total porque não me entrego de vez. Graças a eu ter encontrado os Amantes da Trova é que dei um rumo mais leve para minha vida. Já tive trova premiada em concursos nacionais. Isso me despertou um lado lírico porque, apesar de ser artista das freiras na infância, em Bela Vista, fazia todo teatro que aparecesse. Me peguei na poesia e no verso”.

Terezinha venceu câncer, covid e dor diária com um sorriso inacreditável
Terezinha venceu câncer, covid e dor diária com um sorriso inacreditável
Terezinha foi atriz aos 77 anos e adorou a experiência (Foto: Marcio Padilhae Marcos Tales)

Terezinha nasceu em Bela Vista e se sente à frente do tempo em que nasceu. O sonho era fazer Medicina, mas a maternidade e o amor foram prioridade.

“Ao invés de vir para Campo Grande, fui ajudar minha irmã em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, fiz o 2º grau lá. Aí conheci uma paixão que me lascou de verde e amarelo. Fui embora para Porto Alegre casada. Em 1970 fiz o último vestibular descritivo para Medicina. Não cursei porque o grande amor não era nem alfabetizado. Aí pari 4 filhas”.

Por lá, fez concurso e começou a ganhar mais que o marido. Ela conta que, depois de dificuldades, ele se acomodou e tomou a decisão de que sustentar 4 era melhor que sustentar 5.

“Vim embora para cá na divisão do Estado. Na época a mulher não podia se separar e carregar os filhos. Só consegui com judicialização. Vim trabalhar com assistência médica. Em terra de cego quem tem um olho é rei, então participei da implementação de setores de saúde daqui”.

Em 1984 pediu demissão e, como gostava de festas, abriu um boteco, depois um restaurante, em seguida um trailer para sustentar 4 filhos adolescentes e uma neta.

Terezinha venceu câncer, covid e dor diária com um sorriso inacreditável
Terezinha venceu câncer, covid e dor diária com um sorriso inacreditável
Curta “A Trovadora e a Poeta”, do diretor Marcus Teles estreou em maio (Foto: Marcos Tales)

“Sonhei com a aposentadoria para pegar o mundo. Mas quando fiz 60 anos e coloquei a mochila nas costas descobri um câncer. Passei 6 meses no Rio com uma mochila de um final de semana, aí desfiz de casa, carro e tudo. Fiquei 5 anos morando em vários lugares diferentes. Tive que voltar para cá, tirei um rim. Depois fui ‘premiada’ com a covid”.

Atriz aos 77 anos

No filme, Terezinha interpreta uma versão de si mesma, uma senhora cadeirante que transforma as dores da vida em poesia através da trova. A personagem divide a história com Lucila, jovem indígena recém-chegada à Capital, interpretada pela atriz e roteirista Gleycielle Nonato Guató.

Terezinha Pantaneira conta que participa do grupo de teatro do Humap (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian) e da faculdade da terceira idade da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Segundo ela, o diretor Marcus Teles disse que a presença da então trovadora no lugar chamava a atenção.

“Eu fazia críticas ácidas dos filmes que fui assistir. No final ele veio conversar comigo sobre minha vida. Quando ele me procurou pelo filme falei que, se tivesse que decorar as falas, era para esquecer porque não lembrava”.

Ela fez cenas caindo na escada e, segundo ela, as falas saíram na hora. Foram improvisadas. O filme tem 18 minutos, mas as gravações demoraram 1 semana. As cenas foram captadas durante o dia todo. Cada cena era gravada de 10 a 15 vezes.

“Depois de pronto eu fiquei maravilhada. O meu objetivo era passar a mensagem de superação, minha oportunidade de que mais pessoas vissem a realização. Tudo na vida que aparece eu abraço, se é para acrescentar. Agora, para problema, eu passo por cima. Eu me apaixonei por essa história do cinema, agora quero mais.

Segundo ela, o diretor comentou que a história foi um misto de realidade e ficção, mas que, para a atriz, era realidade pura. “Porque mostrava minha técnica de subir escadas com os braços.” Antes, o ato ainda era possível, mas agora, devido às dores, a coisa complicou.



Source link