Agências orientam produtores e banco afirma que a fase mais crítica da crise no campo ficou para trás
Mesmo antes da regulamentação completa da MP (Medida Provisória) nº 1.376/2026, produtores rurais de Mato Grosso do Sul já podem procurar as agências do Banco do Brasil para manifestar interesse na renegociação de dívidas. Segundo o diretor de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Alberto Martinhago Vieira, as equipes da instituição já estão orientadas a atender os clientes e iniciar o levantamento das operações que poderão ser enquadradas nas novas regras.
Produtores rurais podem solicitar ao Banco do Brasil a renegociação de dívidas baseada na Medida Provisória 1.376/2026. A norma atende quem sofreu perdas de safra entre 2019 e 2025, oferecendo juros de 5% a 12% ao ano e prazos de até oito anos. O benefício abrange desde agricultores familiares até grandes cooperativas, com prazo de adesão até 12 de novembro. Estima-se que mais de 100 bilhões de reais em débitos no país possam ser renegociados enquanto o setor monitora riscos climáticos futuros.
A entrevista concedida ao Campo Grande News também contou com a participação do superintendente de Varejo do Banco do Brasil em Mato Grosso do Sul, Fernando Porto Flor.
A medida provisória, assinada pela Presidência da República na quarta-feira (15), permite a renegociação de financiamentos contratados por produtores que sofreram perdas de safra entre 2019 e 2025. As condições variam conforme o perfil do produtor, com juros entre 5% e 12% ao ano e prazo de até oito anos para pagamento. Os interessados têm até 12 de novembro para contratar o novo empréstimo.
A MP contempla agricultores familiares, pequenos, médios e grandes produtores, além de cooperativas. Também permite a emissão de novas CPRs (Cédulas de Produto Rural) para a liquidação de títulos não pagos, desde que atendidas as condições previstas na medida. Segundo estimativa do Ministério da Fazenda, mais de R$ 100 bilhões em dívidas rurais poderão ser renegociados.
Embora ainda sejam aguardadas uma resolução do CMN (Conselho Monetário Nacional) e uma portaria do Ministério da Fazenda para a operacionalização da linha, Vieira afirmou que os produtores já podem procurar o banco.
“As nossas agências já estão preparadas para começar a colher as intenções dos produtores. A linha, especificamente, a gente aguarda ainda dois documentos formais, a resolução do CMN e a portaria de recursos do Ministério da Fazenda, mas nós acreditamos que nos próximos dias a linha de crédito já estará operacional para a gente fazer as formalizações. Desde o dia do anúncio, nós já temos produtores ligando para gerentes, gerentes de relacionamento, manifestando o interesse deles em fazer adesão às linhas da medida provisória.”
Segundo o executivo, produtores que mantêm cadastro, limite de crédito e garantias atualizados poderão renegociar a dívida e também contratar recursos do Plano Safra para a próxima temporada agrícola. “Se ele tiver com o seu cadastro e seu limite de crédito atualizado, a gente tem condições de atender às necessidades dele, inclusive no investimento, se ele tiver com todo o seu cadastro em dia com o banco.”
Vieira acrescentou que, em operações de custeio, o dinheiro pode ser liberado no mesmo dia, desde que toda a documentação esteja regular. “Se for uma operação de custeio, já tiver limite de crédito, se o produtor já tem até uma garantia constituída, a gente consegue rodar uma operação dessa em até um dia, no mesmo dia.”
Epicentro da crise passou
Maior operador de crédito rural do País, o Banco do Brasil tem participação entre 40% e 50% nas operações do Plano Safra. Em Mato Grosso do Sul, a fatia da instituição fica em torno de 45%, considerando o conjunto dos financiamentos da safra, e pode alcançar 70% em linhas específicas.
O banco avalia que o momento mais crítico da crise financeira enfrentada pelo setor já passou. Vieira informou que a inadimplência da carteira rural da instituição gira em torno de 6,2% no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, o percentual ficou entre 8% e 10%, mas já apresenta redução.
Ainda assim, o diretor ressaltou que a ampla maioria dos produtores continua honrando seus compromissos. “Nós temos mais de 90% dos produtores nos pagando em dia. Eles continuam honrando seus compromissos, continuam tomando seus créditos, continuam fazendo seus investimentos. Então, o desafio se concentra em uma pequena quantidade de produtores.”
Vieira afirmou que os indicadores já mostram melhora em relação aos meses anteriores. “Sem dúvida, a gente já está observando esse percentual arrefecendo. A gente tem isso muito claro, que o epicentro talvez dessa crise, como o Beto bem sublinhou, 94% da carteira [em âmbito nacional] está adimplente.”
Segundo ele, o banco dispõe de diferentes mecanismos de composição, renegociação e alongamento das dívidas para permitir que produtores com dificuldades financeiras permaneçam na atividade.
El Niño muda planejamento dos produtores
Além da reorganização financeira, outro tema que passou a ocupar espaço nas conversas entre o banco e os produtores é o risco climático. Segundo Vieira, o Banco do Brasil monitora praticamente todos os dias as projeções para o El Niño e já percebe mudanças no planejamento da próxima safra.
“Eu já tive alguns produtores que declararam para mim que escolherão um pouco quais as áreas que farão o cultivo dependendo da situação climática. Uma área que é menos produtiva, uma área mais nova, o próprio produtor já sinalizou que talvez este ano não vai investir, porque sabe que, se tiver alguma quebra naquela produção, ele pode acabar tendo prejuízo naquele talhão.”
Na avaliação do diretor, o cenário reforça a necessidade de ampliar a adoção de mecanismos de mitigação de riscos. Atualmente, segundo o banco, cerca de 40% das operações contam com seguro agrícola ou cobertura do Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária).
Para Vieira, 2026 deve ser um ano de maior discussão sobre o uso do seguro rural e de instrumentos de proteção de preços. Uma das alternativas é a comercialização antecipada de parte da produção, de forma a reduzir a exposição a perdas climáticas e a oscilações do mercado.
“Mas acho que é um ano de se discutir isso, é um ano de se fazer conta sobre isso. A gente faz o seguro rural, inclusive das áreas não financiadas. Se o produtor não fez o financiamento com a gente, mas, de repente, tem uma outra seguradora com que ele opera, acha que o preço não está acessível e quer vir discutir com a gente uma cotação, a gente consegue customizar uma cotação. A gente vai enxergar o histórico de produtividade da área dele para poder ter um preço personalizado para aquele produtor.”
O diretor também defendeu a combinação do seguro agrícola com operações de proteção de preços, para evitar um descasamento entre os custos da produção e a receita obtida na comercialização da safra.
“Ele proteger parte do seu custo, já comercializando alguma coisa da sua soja, da sua produção, para evitar que ele tenha alguma consequência futura, um descasamento entre as receitas e as despesas. Então, acho que essa combinação desses dois mitigadores faz com que ele consiga criar amortecedores para um evento como esse que a gente tem a acompanhar.”