Sebo, tilápia e couro entram na tarifa de 12,5% dos EUA, mas 95% de MS escapam

Levantamento mostra que carne bovina, celulose e ferro estão entre os produtos preservados da sobretaxa Filés de tilápia estão entre os produtos de Mato Grosso do Sul que passam a ser atingidos pela nova tarifa adicional de 12,5% imposta pelos Estados Unidos. No primeiro semestre, as exportações do produto somaram US$ 4,08 milhões. (Foto: Divulgação)...


Levantamento mostra que carne bovina, celulose e ferro estão entre os produtos preservados da sobretaxa

Filés de tilápia estão entre os produtos de Mato Grosso do Sul que passam a ser atingidos pela nova tarifa adicional de 12,5% imposta pelos Estados Unidos. No primeiro semestre, as exportações do produto somaram US$ 4,08 milhões. (Foto: Divulgação)

A nova tarifa adicional de 12,5% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entra em vigor à 0h01 desta sexta-feira (24), mas terá impacto limitado sobre as exportações de Mato Grosso do Sul.

A tarifa adicional de 12,5% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros terá impacto limitado nas exportações de Mato Grosso do Sul, segundo levantamento do Campo Grande News. De janeiro a junho, 95,34% dos US$ 371,02 milhões vendidos ao mercado americano ficaram em listas de exceção. A cobrança atinge principalmente sebo bovino, filés de tilápia e couros, enquanto carne bovina, celulose, ferro fundido e minério de ferro seguem isentos.

Levantamento realizado pelo Campo Grande News, com base nos dados do ComexStat do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e na lista oficial de exceções publicada pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), mostra que 95,34% do valor exportado pelo Estado ao mercado norte-americano entre janeiro e junho de 2026 permanecerá livre da nova cobrança.

No primeiro semestre deste ano, Mato Grosso do Sul exportou US$ 371,02 milhões aos Estados Unidos. Desse total, US$ 353,74 milhões correspondem a mercadorias incluídas nas listas de isenção divulgadas pelo governo americano. Apenas US$ 17,28 milhões, o equivalente a 4,66% das vendas, estarão sujeitos à tarifa adicional.

Em volume, o Estado embarcou 437,5 mil toneladas ao mercado norte-americano. Desse montante, 427,2 mil toneladas (97,66%) permanecem isentas, enquanto 10,3 mil toneladas (2,34%) passam a recolher a nova sobretaxa.

Tarifa é resposta à investigação sobre trabalho forçado

A medida foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) após a conclusão de investigações conduzidas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

As investigações avaliaram as políticas adotadas por cerca de 60 países, entre eles o Brasil, para impedir o comércio internacional de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Na avaliação do governo americano, esses países não adotariam medidas consideradas suficientes para restringir a circulação desses produtos, criando distorções concorrenciais e prejudicando empresas e trabalhadores dos Estados Unidos.

Como resposta, o USTR determinou a aplicação de uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos originários desses países. Ao mesmo tempo, publicou uma ampla relação de exceções para mercadorias consideradas estratégicas para a economia americana ou cuja oferta doméstica é insuficiente, preservando produtos como carnes bovinas, celulose, ferro fundido, minério de ferro, derivados de mandioca e itens ligados à indústria aeronáutica.

A cobrança começou nesta sexta-feira (24), no horário da costa leste dos Estados Unidos, com regras de transição para cargas que já estavam em trânsito antes da publicação do ato.

Segundo tarifaço em poucos dias

Esta é a segunda medida tarifária anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros em menos de duas semanas. No último dia 15 de julho, o governo do presidente Donald Trump confirmou outro pacote tarifário, de 25%, também acompanhado por uma extensa lista de exceções. Na ocasião, levantamento do Campo Grande News mostrou que a maior parte da pauta exportadora de Mato Grosso do Sul destinada ao mercado americano havia sido preservada, principalmente em razão da exclusão de produtos como carne bovina, celulose e ferro-gusa.

Agora, a nova tarifa de 12,5% mantém cenário semelhante. Embora atinja um número maior de posições tarifárias, as exceções voltam a contemplar justamente os produtos de maior peso na pauta sul-mato-grossense, limitando significativamente os efeitos econômicos para o Estado.

Diversificar mercados é o caminho, avalia especialista

O especialista em comércio exterior Aldo Barrigosse avalia que o novo tarifaço reforça a necessidade de o Brasil reduzir a dependência de poucos compradores internacionais. Segundo ele, ampliar o acesso a novos mercados diminui o risco de medidas unilaterais, como tarifas, barreiras sanitárias e outras restrições comerciais.

“Quanto mais mercados nós tivermos para colocar os nossos produtos, estrategicamente você dilui o risco de um outro país impor um tarifaço, uma barreira ou outras medidas de proteção de mercado”, afirma.

Para Barrigosse, a ampla lista de exceções divulgada pelos Estados Unidos preservou justamente os produtos de maior peso para Mato Grosso do Sul, especialmente a carne bovina, a celulose e parte da cadeia do minério de ferro, reduzindo os impactos imediatos sobre a economia estadual.

“A carne bovina ficou fora do tarifaço. Isso faz com que nossos produtos continuem muito competitivos no mercado americano, que tem demanda e capacidade para absorver essa produção”, explica.

O especialista destaca ainda que a decisão foi especialmente importante para a pecuária sul-mato-grossense. Segundo ele, cerca de 20% da carne bovina brasileira exportada aos Estados Unidos tem origem em Mato Grosso do Sul, o que significa que uma eventual taxação poderia afetar frigoríficos, produtores rurais, investimentos e empregos no Estado.

“Foi com bons olhos que o segmento recebeu a inclusão da carne bovina na lista de exceções. Uma tarifa sobre esse produto poderia reduzir os abates, os investimentos e até os empregos na cadeia da pecuária”, afirma.

Carnes, celulose e ferro permanecem livres da tarifa

Os principais produtos exportados por Mato Grosso do Sul aos Estados Unidos aparecem entre as mercadorias isentas da nova cobrança.

Entre eles estão:

  • carne bovina congelada;
  • carne bovina fresca ou refrigerada;
  • carne bovina salgada;
  • ferro fundido bruto;
  • celulose;
  • minério de ferro;
  • tapioca e fécula de mandioca;
  • outros derivados de mandioca;
  • partes e componentes da indústria aeronáutica.

A carne bovina congelada lidera a pauta estadual destinada aos Estados Unidos, com US$ 190,37 milhões exportados entre janeiro e junho. Em seguida aparecem o ferro fundido bruto, com US$ 74,24 milhões, e a celulose, com US$ 59,38 milhões.

Sozinhos, esses três produtos representam cerca de 87% de tudo o que Mato Grosso do Sul vendeu ao mercado americano no primeiro semestre.

Sebo bovino concentra mais da metade do impacto

Embora apenas uma pequena parcela das exportações estaduais seja atingida, a tarifa concentra seus efeitos em poucos segmentos.

O principal produto sujeito à nova cobrança é o sebo bovino fundido, responsável por US$ 9,81 milhões em exportações no semestre, equivalente a 56,7% de todo o valor tarifado. Veja a lista completa abaixo:

Sebo, tilápia e couro entram na tarifa de 12,5% dos EUA, mas 95% de MS escapam

Cinco produtos concentram mais de 92% das exportações sul-mato-grossenses sujeitas à nova tarifa: sebo bovino (US$ 9,81 milhões), filés de tilápia (US$ 4,08 milhões), couros bovinos preparados (US$ 2,09 milhões), couros bovinos divididos (US$ 416 mil) e tilápia fresca ou refrigerada (US$ 376 mil).

Também aparecem na lista itens de menor expressão comercial, como proteínas concentradas, álcool etílico, ovos secos, adesivos, produtos têxteis, móveis, artigos de papel, embalagens, brinquedos e algumas autopeças.

Maioria da pauta continua protegida

O cruzamento realizado pelo Campo Grande News identificou 53 produtos exportados por Mato Grosso do Sul aos Estados Unidos no primeiro semestre.

Desse total:

  • 15 posições aparecem nas listas de exceção publicadas pelo USTR;
  • 38 posições permanecem sujeitas à tarifa adicional.

Apesar de representarem menos de um terço das posições tarifárias, os produtos isentos concentram praticamente toda a receita das exportações estaduais para o mercado americano.

Raio X das exportações de MS aos EUA:

  • Valor exportado (jan-jun/2026): US$ 371,02 milhões
  • Volume exportado: 437,49 mil toneladas
  • Produtos isentos: US$ 353,74 milhões (95,34%)
  • Produtos tarifados: US$ 17,28 milhões (4,66%)
  • Volume isento: 427,24 mil toneladas (97,66%)
  • Volume tarifado: 10,26 mil toneladas (2,34%)
  • Principal produto atingido: sebo bovino fundido (US$ 9,81 milhões)
  • Principal produto preservado: carne bovina congelada (US$ 190,37 milhões)

Metodologia

O levantamento foi elaborado pelo Campo Grande News a partir do cruzamento entre os dados de exportações do ComexStat, do MDIC, e as listas oficiais de exceções publicadas pelo USTR. A comparação foi realizada no nível de seis dígitos do Sistema Harmonizado (HS-6), padrão internacional utilizado na classificação de mercadorias no comércio exterior. Dessa forma, foi possível identificar quais produtos da pauta exportadora de Mato Grosso do Sul permanecem isentos da tarifa adicional de 12,5% e quais passam a ser alcançados pela medida.



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