Ponte Bioceânica é impressionante de perto, mas não é todo mundo que chega lá

Há duas formas de alcançar a estrutura, mas nenhuma dispensa caminhonete ou as bênçãos do tempo Confira a galeria de imagens: Com o novo filme do diretor Christopher Nolan em cartaz nos cinemas, vou me apropriar do hype para compartilhar um percurso que foi uma verdadeira Odisseia e envolve investimento de quase US$ 90 milhões....


Há duas formas de alcançar a estrutura, mas nenhuma dispensa caminhonete ou as bênçãos do tempo

Confira a galeria de imagens:

Com o novo filme do diretor Christopher Nolan em cartaz nos cinemas, vou me apropriar do hype para compartilhar um percurso que foi uma verdadeira Odisseia e envolve investimento de quase US$ 90 milhões. A Ponte Bioceânica é a nova grande conquista dos setores econômico e político de Mato Grosso do Sul, mas ainda está no campo da teoria para as pessoas comuns, já que não é nada simples chegar até ela.

A Ponte Bioceânica, estrutura de 1.294 metros que liga Porto Murtinho, no Brasil, a Carmelo Peralta, no Paraguai, com investimento de quase US$ 90 milhões, já está conectada, mas os acessos nos dois países ainda são precários. Para chegar à obra, é necessário enfrentar estradas de terra, lama e obstáculos inesperados, como uma área controlada por menonitas. A preocupação é que a ponte repita o histórico da Ponte da Integração, em Foz do Iguaçu, que ficou três anos sem uso por falta de acesso.

Para quem ainda não conhece o projeto, o investimento pretende ligar Brasil e Paraguai, entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta. A estrutura, com 1.294 metros de extensão, já está conectada.

Entendemos a importância logística, mas, grosso modo, algo precisa ser dito: é uma ponte no meio do Rio Paraguai que, atualmente, sai de “coisa alguma” para “lugar nenhum”. Está lá, bonita e impressionante em sua magnitude, mas sem sequer um quilômetro de pavimento em suas cabeceiras.

Minha missão era chegar até ela de forma independente. Moradores indicaram o setor administrativo do canteiro de obras no lado brasileiro, às margens da BR-267, cerca de seis quilômetros distante do perímetro urbano de Porto Murtinho. Por ali seria possível acessar a chamada Estrada do Bocaiuval e seguir por terra até a ponte.

A quinta-feira (23) estava chuvosa, assim como o dia anterior. Quando cheguei ao local, um trabalhador informou que as atividades estavam paradas por causa do tempo. Insisti. Disse que estava tudo bem e que só queria acessar a famosa Estrada do Bocaiuval.

A resposta foi uma risada, uma encarada no Polo do jornal e a reação mais sincera possível: “Moça, esse carro não passa!”

Não chegar à ponte, porém, não era uma opção. Com a localização aberta no Google Maps, seguimos em direção ao rio. Lá, embarcamos o carro branco em uma balsa. Antes da travessia, o valor combinado foi de R$ 150.

Balsa no canal que passa por trás da Isla Margarita, para descer o veículo em Carmelo Peralta (Foto: Osmar Veiga)

Ao chegar a Carmelo Peralta, a internet começou a dar sinais de falha. Perguntei se o cobrador aceitava cartão de débito, mas ele respondeu que era “só Pix ou guarani”. Rezei para Santo Carlo Acutis e, felizmente, houve conexão.

Com os agentes da aduana, o diálogo foi mais bem-humorado.

“¿Se van a quedar por acá nomás?

Respondi que iríamos apenas até a ponte e voltaríamos.

“Muy bueno, entonces ni hace falta pasar por Migraciones.”

Mesmo assim, fui até a sala da Imigração, apenas para ter certeza de que todo o percurso seria feito por estradas de terra.

Passamos por uma cidade de aparência quase rural, com casas simples, muitos cachorros, árvores frutíferas e motocicletas estacionadas. Até uma ema dividia o quintal de uma das residências.

Somente ao chegar à PY-15, no início da rodovia, o pavimento mudou um pouco. Parecia mais uma calçada do que a massa asfáltica à qual estamos acostumados. Quando saímos da rodovia, começou o problema.

Ponte Bioceânica é impressionante de perto, mas não é todo mundo que chega lá
Ponte Bioceânica é impressionante de perto, mas não é todo mundo que chega lá
Primeira imagem é da área com casas, enquanto a segunda foto é da estrada de lama antes da propriedade menonita (Foto: Osmar Veiga)

Faltavam apenas uma linha reta e uma curva à esquerda para chegarmos à ponte. O trecho, porém, era formado pela argila do Chaco paraguaio, uma espécie de lama pegajosa que fazia o nosso Volkswagen Polo sambar e tomar banho com a falta de cerimônia das caminhonetes com tração que passavam ao lado.

Faltava pouco quando demos de cara com uma cerca, placas com dizeres em inglês e alemão e um porteiro nada amigável. Ele nos expulsou dali e não aceitou qualquer tentativa de diálogo.

A área aos pés da ponte pertence a menonitas. Eles não formam apenas um grupo religioso, mas também uma comunidade etnocultural fechada e autônoma, conhecida pelas colônias agrícolas isoladas.

Sem ter para onde correr e focada em entregar a pauta, minha única estratégia de sobrevivência jornalística foi pedir carona. Fiz sinal para a primeira caminhonete paraguaia que passou. Eles me entendiam, mas eu não entendia quase nada do que diziam. O importante é que havia espaço para mim e para o fotógrafo. Apenas entramos.

Poucos metros depois, chegamos a uma muralha de areia. Era a cabeceira da ponte.

Finalmente alcançamos a estrutura e o ponto de união entre os dois países. Ali, conhecemos histórias de paraguaios e brasileiros. Nesse meio-tempo, com o apoio de veículos da polícia, o motorista João Carlos conseguiu chegar com o carro do jornal, agora alguns quilos mais pesado por causa da lama branca do Chaco.

Ponte Bioceânica é impressionante de perto, mas não é todo mundo que chega lá
Ponte Bioceânica é impressionante de perto, mas não é todo mundo que chega lá
Porte termina em um barranco de areia, retirado do próprio rio por dragas (Fotos: Osmar Veiga)

E para voltar – Conseguimos uma carona na balsa usada pela comitiva de visitantes do prefeito de Porto Murtinho, Nelson Cintra, e retornamos pelo lado brasileiro.

Do nosso lado, as coisas não são muito diferentes. O barranco de areia termina em lugar nenhum, e todos que estavam ali, em suas caminhonetes, voltaram pela estrada vicinal, a tal Bocaiuval. O percurso durou 35 minutos, sem paradas, mas foi bem mais tranquilo. Parecia qualquer estrada de fazenda de Mato Grosso do Sul.

A missão de chegar até ela de forma independente não foi totalmente concluída.

Nova Ponte da Integração? – O chamado “beijo da ponte” foi muito celebrado pelos setores político e empresarial, tanto que motivou a ida da comitiva ao local naquela quinta-feira.

No lado brasileiro, estão previstos 13,1 quilômetros de rodovia, seis pontes, um viaduto e o contorno rodoviário de Porto Murtinho. No Paraguai, autoridades também falam em captar recursos para concluir os acessos.

Porém, se a ponte levou quase quatro anos para finalmente se conectar, quanto tempo será necessário para que uma carreta carregada de soja consiga passar por ali?

A esperança é que ela não se transforme em uma nova Ponte da Integração, estrutura que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Presidente Franco, no Paraguai.

Essa obra ficou pronta, mas permaneceu sem uso por quase três anos devido ao atraso na construção dos acessos nos lados brasileiro e paraguaio, o que inviabilizou a circulação de carros e caminhões.

Bem, em poucos meses o acabamento da nossa ponte estará sendo entregue em clima de festa. Agora sabemos que para chegar lá é só de caminhonete e com ajuda de internet por satélite para não ter perrengue.

Ponte Bioceânica é impressionante de perto, mas não é todo mundo que chega lá
Estrada de terra do lado brasileiro é toda margeada por bocaiúva (Foto: Osmar Veiga)



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