Após largar a tecnologia, Jeferson encontrou no Uber uma forma de recomeçar e preservar a saúde mental
Jeferson Lima diz que já trabalhou como desenvolvedor de sistemas e abriu mão de um salário superior a R$ 10 mil. Aos 43 anos, hoje dirige pelas ruas de Campo Grande. É do tipo simpático, que topa uma conversa, deixa um textão no banco de trás para quem tiver curiosidade de ler e, no meio do trajeto, você descobre que ele também tem uma frangaria nos fins de semana. Em meio a tudo isso, faz questão de falar sobre os estudos e de como os livros transformaram sua vida.
Jeferson Lima, 43 anos, trocou uma carreira como desenvolvedor de sistemas, com salário acima de R$ 10 mil, para dirigir pelo aplicativo Uber em Campo Grande e administrar uma frangaria aos fins de semana. A mudança foi motivada por questões de saúde mental. Ele atribui seu crescimento pessoal ao hábito da leitura, adquirido na faculdade, e hoje utiliza audiobooks e podcasts durante as corridas para continuar aprendendo sobre finanças e empreendedorismo.
É tanta conversa que decidimos contar a história de Jeferson no Papo de Uber de hoje. Ele diz que a decisão de deixar a área de tecnologia veio depois de muito cansaço. Antes de pedir demissão, passou cinco meses conciliando duas jornadas: fazia corridas de Uber logo cedo, trabalhava como desenvolvedor durante o expediente e voltava ao volante à noite. O objetivo era descobrir se conseguiria manter as despesas da família antes de abrir mão do emprego fixo.
O motivo da mudança também não foi financeiro. Depois de anos trabalhando na área para a qual se preparou com um curso técnico e duas graduações, percebeu que a rotina dentro da empresa estava comprometendo sua saúde mental. Foi então que decidiu mudar de direção. “Sobre o que a Uber me deu que eu não tinha como desenvolvedor, creio a minha sanidade”, explica.
Hoje, além das corridas de aplicativo, Jeferson mantém uma frangaria, a Frango Já, no Bairro Los Angeles. O negócio nasceu de uma parceria com um amigo empreendedor, Alessandro, que o procurou com a ideia de abrirem algo juntos. Antes de vender o primeiro frango, os dois estudaram o mercado, testaram receitas e montaram a operação na casa de Jeferson, com vendas exclusivamente online.
A sociedade terminou algum tempo depois, mas ele seguiu sozinho. Hoje, abre apenas aos domingos e espera fazer o empreendimento crescer para que, no futuro, se torne sua principal fonte de renda.
Empreender, aliás, mudou completamente sua maneira de enxergar os negócios. Jeferson já havia tentado abrir uma lan house e uma loja de roupas, mas acredita que, naquela época, faltava aquilo que hoje considera essencial: conhecimento. “Além de dedicação e força de vontade, o principal é estudar para saber o que está fazendo”, diz.
Para Jeferson, estudar nunca significou apenas conquistar diplomas ou aumentar a renda. A leitura mudou a forma como enxerga as pessoas, toma decisões e lida com as dificuldades do dia a dia. Ao ler sobre comportamento humano, história, ciência e finanças, passou a questionar antigas certezas e percebeu que amadurecer exige disposição para continuar aprendendo.
O hábito começou na faculdade. O primeiro livro foi O Clube das Cinco da Manhã, escolhido porque acordar cedo já fazia parte da rotina entre trabalho e estudos. Depois vieram títulos como O Homem Mais Rico da Babilônia, Sapiens e Por Que Dormimos.
Cada obra deixou um aprendizado diferente, da disciplina e educação financeira à compreensão sobre a evolução humana e a importância do descanso.
“Você começa lendo para aprender uma coisa e, quando percebe, está aprendendo sobre você mesmo”, resume.
Com o tempo, a leitura deixou de ser uma obrigação da faculdade e passou a fazer parte da rotina. Jeferson acredita que os livros o tornaram mais paciente, menos impulsivo e mais aberto a ouvir opiniões diferentes. Também diz que aprendeu que mudar de ideia não é sinal de fraqueza, mas de crescimento.
Neste ano, admite que não conseguiu cumprir a meta de ler um livro por mês. Ainda assim, manteve o hábito de aprender por meio de audiobooks e podcasts.
Antes de começar as corridas, monta uma playlist com conteúdos sobre desenvolvimento pessoal, finanças, empreendedorismo, psicologia, comportamento e ciência. Em vez de música, é esse o áudio que o acompanha durante o dia.
“A gente passa muito tempo dirigindo. Eu poderia ouvir só música, mas prefiro aproveitar esse tempo para aprender alguma coisa nova todos os dias”, comenta.
O interesse pelo conhecimento também aparece dentro do carro. Ao perceber que poucos passageiros liam os avisos espalhados pelo veículo, criou uma frase para despertar a curiosidade de quem embarca. A estratégia funcionou. Foi justamente essa mensagem que chamou a atenção de uma passageira e fez a história dele chegar ao Lado B.
Quando percebe interesse do passageiro, Jeferson compartilha indicações de livros que marcaram sua trajetória e incentiva outras pessoas a criarem o hábito da leitura.
Ele conta que as conversas durante as corridas também mudaram sua forma de enxergar as pessoas. Ao ouvir histórias de passageiros que enfrentam desafios, como doenças graves, aprendeu a julgar menos e a escutar mais.
Sobre o futuro, diz que ainda não sabe qual caminho seguirá. Pode voltar para a área de tecnologia, investir na frangaria ou continuar dirigindo por aplicativo. “Acima de tudo, quero ensinar meus três filhos a respeitar as pessoas e mostrar a importância da leitura. Se eu deixar isso como legado para eles, já serão pessoas de bem e de sucesso”, conclui.
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