Paulino ajudou a construir Campo Grande e guarda cada obra no peito

Aos 88 anos, Paulino relembra obras e memórias por trás de edifícios de Campo Grande Aos 88 anos, Paulino recorda da sua trajetória na arquitetura de Campo Grande (Foto: Maya Severino) Não é só concreto, ferro e cálculo, para Paulino de Barros Filho, de 88 anos, cada prédio que ajudou a erguer em Campo Grande...


Aos 88 anos, Paulino relembra obras e memórias por trás de edifícios de Campo Grande

Aos 88 anos, Paulino recorda da sua trajetória na arquitetura de Campo Grande (Foto: Maya Severino)

Não é só concreto, ferro e cálculo, para Paulino de Barros Filho, de 88 anos, cada prédio que ajudou a erguer em Campo Grande carrega um pedaço da própria vida. E basta passar em frente a um deles para sentir. “Dá um trocinho no coração”, resume.

Paulino de Barros Filho, engenheiro civil de 88 anos, ajudou a construir marcos da paisagem de Campo Grande, como o Edifício Iná e a Antiga Rodoviária. De volta à capital em 1964, após o início da ditadura militar interromper obras federais, ele começou sozinho, fazendo cálculos estruturais de pequenas obras. Com a verticalização da cidade em 1965, participou de grandes projetos e recebeu apartamentos como pagamento, alguns perdidos por desapropriações. Hoje, ao passar pelos edifícios, afirma sentir um frio no coração.

De volta à Capital desde 1964, o engenheiro civil participou da construção de edifícios que hoje fazem parte da paisagem e da memória da cidade, como o Edifício Iná e a Antiga Rodoviária. Mas, antes de tudo isso, houve incerteza.

Recém-formado, ele começou a carreira no DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), que hoje é o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). Com o início da ditadura militar, porém, houve interrupção das obras federais. Foi então que, por sugestão do pai, decidiu voltar para Campo Grande.

“Quando cheguei aqui, o DNER me deixou um apartamento à disposição, no melhor hotel da cidade. Adivinha? O hotel Gaspar. Era o único que tinha ali, o mais moderno, e ficamos lá dois meses. Depois fomos morar na casa da minha mãe e ela cedeu a sala da frente para fazer o meu escritório”, relembra.

Paulino ajudou a construir Campo Grande e guarda cada obra no peito
Edifício Inah

Os primeiros trabalhos vieram por indicação do pai de um amigo. No início, ele fazia cálculos estruturais de pequenas obras, como sobrados. “Cada vez ia me inserindo mais no que eu gostava de fazer. Eu não tinha desenhista, trabalhava sozinho, eu mesmo desenhava, fazia tudo”, conta.

Em 1965, a cidade começava a crescer verticalmente, e Paulino acompanhou esse movimento de perto. Um empreiteiro buscava um engenheiro calculista que morasse na Capital e encontrou nele a pessoa certa.

“Ele lançou cinco prédios ao mesmo tempo. […] Fiquei quase três anos com ele, mas da metade, quase todos os prédios eu que terminei a estrutura. O primeiro que participei foi o Edifício Conjunto Nacional, ali na Dom Aquino, entre a Calógeras e a 14 de junho. Eu cheguei lá e tava tocando a fundação já”, explica.

Na sequência, vieram outros marcos. Um deles foi o Edifício José Antônio Pereira, na Avenida Afonso Pena, entre as ruas Rui Barbosa e 13 de Maio. Projetado inicialmente para ser residencial, acabou sendo desapropriado pelo Exército.

Na época, parte do pagamento pelos serviços vinha em forma de unidades nos próprios prédios. No José Antônio Pereira, Paulino receberia dois apartamentos, um para ele e outro para o pai.

“Mandamos fazer um armário planejado. Passei por uma cirurgia e enquanto eu estava me recuperando, chega o incorporador do prédio que era muito nosso amigo e falou: ‘não sei se você sabe, mas foi aprovado o esquema de desapropriação do prédio’. Ela [sua esposa] só falou ‘e o meu armário?’ e eu disse que ia ter que deixar lá”, conta.

Outro projeto marcante foi o Edifício Iná, também na Afonso Pena. A lembrança vem com bom humor. “Nesse daí me livraram de comprar o apartamento que era muito caro. Eu ficaria com saldo negativo”, brinca.

Já o Edifício Itamarati guarda uma curiosidade urbana que arranca risos até hoje. “Ele é gozado, viu? Ele é um prédio em L porque o terreno da esquina não é do prédio. O cara da esquina não quis vender o terreno”.

Entre tantas obras, uma das mais simbólicas é o Terminal Rodoviário Oeste. Mesmo com o espaço desativado, Paulino mantém um vínculo afetivo com o local. “Lá nós temos duas lojas que são simbólicas. Vira e mexe eles fecham a rodoviária, tem perspectiva de abrir novamente, mas a gente deixa lá porque é a nossa história”.

Paulino ajudou a construir Campo Grande e guarda cada obra no peito
Paulino durante evento do Rotary Campo Grande Norte (Foto: Maya Severino)

Depois de cerca de duas décadas na construção civil, ele mudou de rumo e passou a atuar na agropecuária. Mais tarde, também fundou o Rotary Club Campo Grande Norte, que chegou ao fim sob sua direção.

Apesar da distância da engenharia, o vínculo com as obras permanece intacto e se revela nos pequenos gestos do dia a dia. “Eu passo em frente e dá um trocinho assim no coração, porque cada um deles você tem uma história”.



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