É estranho. Como passamos a ter nojo dos insetos? Esse era o alimento principal de nossos antepassados que viviam pulando de galho em galho. Há dez milhões de anos, nossos primeiros ancestrais eram nômades, mas não nômades que andavam, viviam pulando. Não dispunham do fogo e nem da linguagem.
O estranho ódio ao álcool.
Logo a seguir, “caem” das árvores, são obrigados a deixar de nelas morar devido a uma mudança climática, a uma seca catastrófica e passam a se alimentar de frutas caídas no solo, as vezes fermentadas. Fermentação produz álcool. Vem daí outra estranheza: se comíamos álcool, como passamos a combatê-lo? Insetos e comidas alcoólicas são nossos primeiros alimentos.
Bendito álcool: uma mutação que transformou o humano.
O corpo do nosso antepassado, que pulava de galho em galho, não conseguia transformar as comidas alcoólicas, as frutas fermentadas, meio apodrecidas. Foi preciso uma mutação genética para metabolizar esses alimentos. O etanol passou, então, a ser muito rapidamente transformado em nosso corpo, facilitando a digestão e o armazenamento das gorduras. Uma vez adaptados ao chão, começam a marchar para todos os cantos do mundo.
Avisando onde tinha comida, começamos a falar.
E fez-se a linguagem. Começamos a falar entre seis e dez milhões de anos. Como outros animais, esses antepassados assinalavam uns aos outros o que comer, o que encontram, o que compartilham e o que disputam. É do encontro com a comida que adquirimos a capacidade de falar.
Gente pequena e magra.
Eles eram bem pequenos. Tinham apenas um pouco mais de um metro de altura. pesavam uns trinta quilos e tinham um cérebro pequeno, dificultando a capacidade linguística. Eles se alimentavam de legumes, frutas e pequenos animais crus ou cadáveres encontrados. O nomadismo é uma necessidade alimentária, buscam o que comer. Nessas viagens, comem tubérculos, plantas, insetos, pequenos animais e ossadas deixadas pelas hienas. Matam os animais com as mãos desnudas, não tem ferramentas e nem armas. Normalmente a pedradas. É nessa época que afinam o esboço daquilo que se parece à linguagem.
A seca nos uniu. A erupção dos mais fortes.
Há três milhões de anos, uma grande evolução: passaram a viver em grupos. A seca os obrigou a buscar uma vida em comum para salvarem-se. Comiam frutas, folhas, ovos e insetos. Dividiam tudo que conseguiam coletar. É essa mudança que a responsável pelo desenvolvimento das faculdades intelectuais. A cooperação mudou o humano. Desde esse momento, sem duvida, os mais fortes comem melhor que os mais débeis. Os machos se alimentam melhor que a fêmeas e as crias. Todavia, comem coisas cruas. São antropófagos? Ninguém sabe. Por incrível que pareça, começam a lavar os alimentos. Alguns se organizam para armazenar cadáveres de animais em esconderijos de ferramentas.
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