Evasão no EAD atinge recorde e escancara contradição do ensino superior no Brasil
A evasão nos cursos de graduação a distância atingiu em 2024 o maior nível da série histórica no Brasil. Na rede privada, 41,9% dos alunos desistiram dos estudos, segundo levantamento do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior) com base em dados do MEC (Ministério da Educação).
O ensino superior a distância (EAD) no Brasil atingiu índices preocupantes de evasão em 2024, com 41,9% de desistência na rede privada, segundo dados do Semesp. O cenário é ainda mais alarmante considerando que, pela primeira vez, o país registra mais estudantes matriculados em cursos EAD do que presenciais, representando 50,75% do total de universitários. A modalidade, que cresceu exponencialmente nos últimos anos, enfrenta desafios significativos na retenção de alunos. Entre os ingressantes de 2020 na rede privada, apenas 23,6% concluíram a graduação até 2024. O governo federal tem implementado novas regulamentações para melhorar a qualidade do ensino, especialmente em áreas como saúde e formação de professores.
O dado surge justamente no momento em que o EAD deixa de ser alternativa e passa a ser o principal modelo de ensino superior no país. Pela primeira vez, o Brasil tem mais estudantes matriculados em cursos a distância do que presenciais. Dos 10,22 milhões de universitários, 5,18 milhões estão no EAD, o equivalente a 50,75% do total, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais).
Na prática, o modelo que mais cresce é também o que mais perde alunos. Considerando todas as redes, a evasão no ensino a distância foi de 41,6%, quase o dobro da registrada nos cursos presenciais, que ficou em 24,8..
A diferença se repete tanto na rede privada quanto na pública. Enquanto instituições privadas lideram o abandono no EAD, com 41,9%, a taxa nas públicas é de 32,2%. Nos cursos presenciais, a evasão é menor em ambos os casos.
Segundo analistas ouvidos pelo jornal Folha de São Paulo, o problema não está apenas na entrada, mas principalmente na permanência. Entre os estudantes que ingressaram em cursos a distância da rede privada em 2020, apenas 23,6% conseguiram se formar até 2024. A maioria, 68,1%, abandonou o curso antes da conclusão.
Mesmo na rede pública, onde os índices são menores, o cenário continua preocupante. Quase metade dos alunos que iniciam uma graduação EAD desiste ao longo de quatro anos.
O crescimento acelerado ajuda a explicar parte desse resultado. Desde 2014, o número de ingressantes em cursos presenciais caiu cerca de 30%, enquanto o EAD registrou expansão de até 360% no volume de novos alunos.
O modelo se consolidou principalmente por oferecer mensalidades mais baixas e flexibilidade de horários, atraindo estudantes que precisam conciliar trabalho e estudo. O problema é que essa mesma flexibilidade, sem acompanhamento adequado, pode favorecer o abandono.
Sem rotina fixa, com menos interação e exigência presencial, muitos alunos perdem o ritmo ao longo do curso.
O próprio mercado já dá sinais de esgotamento. Após anos de expansão acelerada, o crescimento das matrículas no EAD começou a desacelerar. Entre 2023 e 2024, o avanço foi de 5,6%, abaixo dos 13,4% registrados no período anterior.
Entidades do setor avaliam que a modalidade pode ter atingido um ponto de saturação, especialmente após absorver a demanda de um público mais velho que não teve acesso ao ensino superior no tempo regular.
Ao mesmo tempo, o governo federal passou a impor novas regras para o ensino a distância, limitando a oferta em áreas como saúde e formação de professores, além de restringir cursos totalmente online em determinadas graduações.