Camiseteria nasceu no quintal para ajudar no sustento da família; filhas cresceram cortando a linha das peças
No fundo de casa, em uma edícula simples, duas máquinas de costura foram o ponto de partida para um negócio que cresceria junto com três meninas. O presente veio do marido, mas a decisão de transformar aquilo em trabalho foi de Valdeci Félix da Silva, hoje com 63 anos. Há 17 anos, para ajudar na renda da família, ela decidiu aprender a costurar.
Em uma edícula simples, Valdeci Félix da Silva, de 63 anos, iniciou há 17 anos um negócio de confecção que transformaria a vida de sua família. Com duas máquinas de costura, ela começou produzindo camisetas, envolvendo suas três filhas desde cedo nas atividades mais básicas do empreendimento. Hoje, a empresa conta com dez funcionários diretos e está em processo de transição. Em 2027, Daniela, Daiane e Débora, suas filhas, assumirão completamente o comando do negócio. Com formações em diferentes áreas e capacitação pelo Sebrae/MS, elas planejam expandir a empresa, mantendo o legado de qualidade e dedicação estabelecido pela mãe.
Antes disso, Val, como é conhecida, já vendeu salgados e fez ímãs de biscuit para a geladeira. A ideia de fazer um curso era para costurar as blusas das pessoas da igreja. O que começou como um favor virou indicação. Um pedido puxou o outro e o trabalho cresceu de forma orgânica, sem investimento, mas com muito esforço.
“Eu já nasci com o espírito empreendedor. Me casei e eu queria trabalhar para ajudar. Foi quando eu fiz um curso de malha. Eu comecei fazer camisetas”, lembra.
Enquanto a mãe costurava, as três filhas cresciam no meio das camisetas. A ajuda delas começou cedo, nas tarefas mais simples como cortar linhas, dobrar e embalar. Foi nesse processo que elas aprenderam a olhar o produto com atenção. A exigência da mãe acabou virando escola e hoje elas agradecem por isso.
“Às vezes, tinha que desvirar as camisetas, dobrar e embalar. E assim, a gente acabou conhecendo os tecidos, pegando esse feeling de sempre olhar para a camiseta e ver se ela tem algum defeito, reconhecer ali a questão da qualidade; minha mãe sempre foi muito exigente quanto à qualidade, então foi assim que a gente aprendeu”, conta Daniela Félix, de 36 anos.
A filha mais velha é formada em administração e hoje é ela quem cuida da parte burocrática da camiseteria. A irmã do meio, Daiane Félix, de 31 anos, diz que metade da própria vida foi acompanhando o crescimento da empresa. Formada em Direito, ela chegou a tentar seguir carreira na área jurídica, mas acabou ficando no negócio da família. Hoje Daiane atua como arte-finalista e também na parte comercial. O caminho surgiu quase por acaso.
“Acabei realmente mergulhando no universo da confecção de uniforme. Aconteceu por acaso, eu tava fazendo um curso de design gráfico e super casou com a com as demandas que estavam surgindo e eu acabei também me especializando. A gente quer realmente se continuar o legado da minha mãe”.
A caçula, Débora Adelaide Félix da Vega, de 27 anos, também entrou na empresa gradualmente. Hoje é ela quem cuida do marketing, das redes sociais, do site e das estratégias digitais da marca.
“Desde pequena também sempre tava ali ajudando, embalando pedido,limpando camiseta. Tinha experiência fora de trabalho, mas a gente sempre via que a empresa puxava a gente, sempre percebia que a gente sentia aquela conexão com a nossa mãe”.
Para ela, o mais impressionante é olhar para a trajetória da família. As irmãs explicam que, apesar da proximidade, trabalhar em família também traz desafios e atritos, mas que com o tempo as funções vão se organizando.
“Eu acredito que pra gente, profissionalmente, foi super bem e hoje a gente olha para gente e vê as bagagens da nossa experiência. Com certeza isso ajudou a gente a ter um outro olhar, uma visão mais empreendedora”, comenta a mais velha. Para Daiane, a família ter conseguido conciliar as coisas e se dar bem no trabalho é um grande diferencial.
Voltando na história, Enquanto as filhas foram assumindo novas responsabilidades, a empresa também cresceu. Primeiro veio a contratação de uma costureira, depois outra. A estamparia, que antes era terceirizada, passou a ser feita dentro da própria empresa para garantir controle de qualidade.
Hoje, a camiseteria conta com dez funcionários diretos, além de serviços terceirizados que ajudam a dar conta da demanda. Mesmo assim, para as filhas, a base do negócio continua sendo a mesma mulher que começou tudo na edícula do fundo de casa.
Em 2027, o comando total da empresa será das filhas. Val será, como sempre foi, a conselheira delas. Quem acha que isso é triste se engana: a decisão foi comemorada por todas.
“Conforme os anos foram passando, a gente foi cansando de trabalhar e eu vi que elas tinham o jeito. Elas estavam trabalhando aqui comigo desde pequena, então elas já conhecem o trabalho. Hoje elas estão assumindo a empresa, estou aqui simplesmente só dando algumas direções, mas a intenção é que elas mesmas assumam completamente”, conta Val.
Para Daniela, não há palavra melhor que defina a mãe senão esforço. Ela lembra que na época ela foi corajosa e esforçada para que tudo desse certo.
“Hoje eu tenho duas filhas, então eu vejo que quanto foi para ela uma decisão assim como mulher de ‘vou cuidar das minhas filhas, vou ficar em casa vou ficar em casa e trabalhar’, mas ao mesmo tempo ter aquela coisa de mãe, de cuidar. Eu sei quanto é difícil em relação a isso. Eu vejo ela, eu vejo ela assim, como que ela foi forte”.
Daiane diz que Val nunca se deixou abalar pelas dificuldades e que sempre foi esperançosa. “Ela batalhou e nunca desistiu. É uma inspiração para a gente. É uma guerreirinha”.
A caçula acrescenta que a mãe é tudo e que honrará o legado. “Tanto na criação, tanto na questão da empresa, ela já passou por bastante coisa e a gente sempre gosta de estar perto dela, fala que amamos ela, que vamos cuidar dela e que queremos, ao máximo, que a empresa cresça e que não percamos esse legado”.
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Em 2025, além da experiência construída dentro da própria empresa, as três irmãs também buscaram capacitação fora para profissionalizar ainda mais o negócio. Foi nesse processo que o contato com o Sebrae/MS acabou marcando uma nova fase para elas.
“A gente fala assim que paga o Sebrae delas e ainda fica devendo”, brinca Daiane, ao lembrar da quantidade de aprendizado que receberam.
Para a família, o impacto foi além do conteúdo técnico. A participação nos programas trouxe contato com outros empreendedores e novas formas de enxergar o próprio negócio. Com a visão mais clara sobre crescimento e planejamento, a família passou a olhar o futuro da empresa com metas mais ambiciosas e pretende até expandir para um galpão.





