Laudo apontou choque anafilático na morte de Grazielle Machado, após reação a algo que ela devia desconhecer
Uma pessoa pode passar a vida inteira sem alergias aparentes e, de repente, desenvolver uma reação grave. A resposta é sim. Segundo a médica alergista e imunologista Adriana Cunha Barbosa, doutora em Ciências pela USP (Universidade de São Paulo), elas podem surgir em qualquer fase da vida, inclusive na idade adulta, mesmo quando o paciente sempre tolerou determinado alimento, medicamento ou picada de inseto.
Alergias graves podem surgir em qualquer fase da vida, mesmo em pessoas que nunca apresentaram reações anteriores. A afirmação é da médica alergista Adriana Cunha Barbosa, doutora pela USP, e ganhou repercussão após a morte da ex-deputada Grazielle Machado por choque anafilático. Os sintomas aparecem entre 5 e 20 minutos após o contato com o agente causador e podem ser fatais se ignorados.
A dúvida ganhou força após o laudo apontar choque anafilático como causa da morte da ex-deputada Grazielle Machado, na semana passada. Ainda não se sabe se a reação foi provocada por alimento, medicamento ou outro agente. Informações de pessoas próximas são de que ela comeu camarão, antes de passar mal, ser hospitalizada e morrer em 24 horas.
“É possível a pessoa desenvolver alergia grave em qualquer momento da vida”, explica a médica ouvida pelo Campo Grande News. No caso dos alimentos, ela afirma que, entre adultos, os gatilhos mais comuns são frutos do mar, castanhas e amendoim. “Mesmo que antes tenha sempre tolerado, a alergia pode surgir”.
A médica também alerta que reações graves não estão restritas à comida. Picadas de abelha e formiga, por exemplo, também podem provocar quadros severos. A questão é que o corpo nem sempre avisa com antecedência clara.
Em alguns casos, o primeiro episódio pode parecer leve, com coceira na garganta, incômodo no corpo ou desconforto passageiro. O problema é ignorar esse sinal.
“Nem sempre essas reações graves acontecem no primeiro consumo. Então atenção, pois alergia alimentar ou qualquer alergia, num primeiro contato, pode apenas ter sintomas mais leves, como uma coceira na garganta, uma leve coceira no corpo, um leve desconforto, que na próxima vez pode ser grave e fatal”, afirma.
Nas alergias graves, os sintomas costumam aparecer rapidamente, entre 5 e 20 minutos após o contato com o agente suspeito. Entre os sinais estão vermelhidões pelo corpo que coçam, chamadas de urticária, inchaço no rosto, na boca, nos olhos ou na pele, conhecido como angioedema, além de tosse, falta de ar e obstrução nasal repentina durante a alimentação.
Qualquer suspeita deve ser levada a sério, alerta a especialista. “Valorize qualquer mínimo sintoma, qualquer mínimo sintoma de coceira, vermelhidão, desconforto que julgue ser uma alergia, procure o especialista para confirmação diagnóstica”, diz.
Depois do diagnóstico, o cuidado passa a ser evitar nova exposição ao causador da alergia. No caso de alimentares, Adriana cita que o paciente precisa redobrar atenção em restaurantes. Quem tem alergia a frutos do mar, por exemplo, deve evitar locais onde esse seja o prato principal e avisar garçons, gerentes e chefes de cozinha sobre o risco de contaminação cruzada.
Isso significa que não basta retirar o ingrediente do prato. Resquícios em colheres, facas, pratos ou outros utensílios já podem causar reação em pessoas sensíveis.
Outro ponto considerado essencial é o plano de ação de emergência, que deve ser indicado pelo médico conforme o caso de cada paciente. Esse plano define quais medicamentos a pessoa deve portar e como agir diante de uma nova reação.
Segundo Adriana, nos casos mais graves, o item mais importante é a caneta de adrenalina autoinjetável, sob recomendação médica.
Para a especialista, o erro mais perigoso é tratar alergia como susto passageiro. “O mais grave é, muitas vezes, não valorizar a reação alérgica, não buscar uma confirmação diagnóstica, não ter os itens do plano de ação de emergência ou demorar, quando começam a ter reação, para buscar assistência médica”.
Alergia na vida adulta
O corpo pode passar a desenvolver alergias em adultos porque o sistema imunológico muda ao longo da vida e pode perder a tolerância a algo que antes reconhecia como inofensivo.
O sistema imunológico passa a tratar uma substância comum, como alimento, pólen, veneno de inseto ou medicamento, como ameaça. A partir daí, produz anticorpos e ativa células que liberam substâncias inflamatórias, como histamina, gerando sintomas.
Para alimentos, uma das explicações centrais é a perda de tolerância oral. Em tese, o intestino e o sistema imune deveriam “aprender” que proteínas dos alimentos não são inimigas. Quando esse mecanismo falha ou se desregula, pode surgir alergia alimentar.