Cidade pressiona e desafio é não deixar jovens indígenas perderem identidade

Luta dos mais velhos é para garantir que as novas gerações não se desconectem de suas raízes Apresentação cultural envolve duas gerações de infígenas de Campo Grande. (Foto: Josias Jordão) Neste sábado (19), quando o país marca o Dia dos Povos Indígenas, a reflexão vai além das homenagens pontuais. Em Campo Grande, onde milhares de...


Luta dos mais velhos é para garantir que as novas gerações não se desconectem de suas raízes

Apresentação cultural envolve duas gerações de infígenas de Campo Grande. (Foto: Josias Jordão)

Neste sábado (19), quando o país marca o Dia dos Povos Indígenas, a reflexão vai além das homenagens pontuais. Em Campo Grande, onde milhares de indígenas vivem em contexto urbano, a data reforça a luta diária de manter viva a cultura, fortalecer o pertencimento e garantir que as novas gerações não se desconectem de suas origens.

Na aldeia urbana Marçal de Souza, que reúne mais de 600 moradores, o cacique Josias Jordão Ramires resume bem esse sentimento. Para ele, o dia 19 é simbólico, mas está longe de ser suficiente.“Não é para ser lembrado só hoje. Todos os dias são dias de luta e resistência”,  afirma.

Mesmo inserido na cidade, ele afirma que os desafios não são menores do que nas aldeias tradicionais. A diferença é que, no ambiente urbano, a cultura precisa disputar espaço com o ritmo da vida moderna e, muitas vezes, com o preconceito ainda mais próximo.

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Diálogo com os mais velhos tem mantido interesse dos mais jovens na própria cultura. (Foto: Josias Jordão)

Ainda assim, a estratégia das lideranças tem sido aproximar os mais jovens das raízes. Festas culturais, grupos de dança, uso da pintura corporal com jenipapo e o incentivo à língua materna são algumas das ferramentas usadas para manter a identidade viva.

E se antes havia resistência entre os mais novos em assumir a identidade indígena, hoje o cenário começa a mudar. Josias conta que, anos atrás, era raro ver jovens usando pinturas ou participando das manifestações culturais. O motivo, muitas vezes, era o medo. “Eles tinham receio do preconceito, do que iam falar. Isso ainda existe, mas estamos mudando com diálogo”, diz.

Esse processo passa, principalmente, pelos mais velhos. São os anciões, pajés e lideranças que transmitem conhecimentos sobre ervas medicinais, língua e costumes, uma herança que não pode se perder.

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Preconceito de fora ainda tem afastado as novas gerações. (Foto: Josias Jordão)

Segundo o cacique, existe a preocupação do risco de a língua materna deixar de existir nas próximas décadas caso não haja preservação. Por isso, a comunidade iniciou aulas para crianças e adolescentes, numa tentativa de garantir continuidade.

Entre os jovens, o sentimento de pertencimento costuma nascer dentro de casa. É o caso da estudante indígena Milka Malheiro, de 15 anos, que carrega no corpo e no cotidiano a expressão da própria cultura. “Desde pequena minha mãe mostrou a importância. Eu tenho muito orgulho”, conta.

Com pinturas feitas com jenipapo e acessórios de sementes, Milka diz que nunca teve medo de se afirmar indígena, embora reconheça que ainda existem olhares e comentários.“As pessoas perguntam, têm curiosidade. Eu gosto de explicar”, afirma.

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Aos 15 anos, Milka faz questão de preservar os costumes da cultura. (Foto: Maya Severino)

Para ela, manter tradições como a pintura corporal, o artesanato e a valorização da língua são formas de resistência, e também de beleza. “A cultura é algo ancestral. É importante levar isso adiante”, resume.

Preconceito ainda é barreira – se o orgulho cresce, o preconceito ainda impõe limites, especialmente fora das aldeias. A jovem Ana Paula Souza, de 21 anos, lembra que a adolescência foi marcada por piadas e desrespeito.

“Na escola, fora da família, a gente escuta muita coisa. Isso dificulta o pertencimento, principalmente na cidade”, relata.

Por isso, ela reforça a importância do diálogo dentro de casa. “Os mais velhos precisam explicar quem somos e de onde viemos. Isso fortalece a gente para enfrentar o que vem de fora”, relata.

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Na Aldeia Marçal de Souza, curso da língua materna é oferecido para os jovens. (Foto: Maya Severino)

Entre desafios e avanços, as lideranças apostam na juventude como ponte entre tradição e futuro. Um exemplo é o primeiro encontro de jovens indígenas em contexto urbano, previsto para maio, que deve reunir cerca de 200 participantes de diferentes etnias.

A proposta é compartilhar experiências, fortalecer vínculos e mostrar, na prática, o que significa ser indígena hoje. Para o cacique Josias, esse movimento é essencial.

“A juventude tem um papel fundamental. Eles precisam ocupar espaços, estudar, crescer, mas sem esquecer quem são”, finaliza.

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