Região passa agora pelo período de paradas industriais de manutenção, “alta temporada” que aquece economia
O avanço da indústria de celulose na costa leste de Mato Grosso do Sul tem provocado reflexos diretos fora dos portões das fábricas. Dados do Observatório do Turismo de MS mostram que, nos últimos anos, a região registrou crescimento de 55% na oferta de hotéis, fenômeno que ganha expressão em momentos de pico, como a parada geral da Suzano em Três Lagoas, que levou a rede hoteleira local a 100% de ocupação, o que tem ocorrido também em municípios onde fábricas se instalam, como Ribas do Rio Pardo e mais recentemente com projetos para Inocência e Bataguassu.
A expansão da indústria de celulose na costa leste de Mato Grosso do Sul impulsionou um crescimento de 55% na oferta hoteleira da região entre 2019 e 2026, chegando a 31 estabelecimentos e 3.152 leitos. Em Três Lagoas, a parada geral da Suzano, que mobiliza 2,3 mil profissionais até 4 de maio, levou os hotéis a 100% de ocupação, forçando visitantes a buscar hospedagem em cidades paulistas vizinhas.
Neste mês, uma movimentação específica do setor é como “alta temporada” na região. A Suzano para de produzir em Três Lagoas para período de manutenção, lotando a cidade de profissionais que vem de outros estados para o trabalho de reordenamento na indústria, o que movimenta R$ 350 milhões no município, segundo estimativas da prefeitura. No mês passado, o mesmo ocorreu na mega fábrica da Suzana em Ribas do Rio Pardo. É considerada uma das maiores operações do calendário industrial desses municípios.
Conforme o levantamento do Observatório, os municípios de Aparecida do Taboado, Bataguassu, Inocência, Paranaíba, Ribas do Rio Pardo e Três Lagoas somam, em 2026, 31 meios de hospedagem e 3.152 leitos. Em 2019, eram 20 estabelecimentos e 2.209 leitos, o que representa crescimento de 55% no número de hotéis e de aproximadamente 42,7% na capacidade de hospedagem em 7 anos.
Três Lagoas responde por mais da metade dos hotéis. Segundo a plataforma de inteligência turística Alumia, o município concentra 18 meios de hospedagem e 2.552 leitos, a maior oferta da região leste. Esse protagonismo se traduz diretamente na ocupação durante eventos industriais de grande porte.
Neste mês, a parada geral da Suzano elevou a demanda ao limite. Segundo a assessoria de imprensa, trata-se de uma manutenção periódica que envolve inspeções, melhorias operacionais e substituição de equipamentos, cujo objetivo é preparar a unidade para um novo ciclo operacional, com duração estimada entre 15 e 18 meses.
A manutenção programada, iniciada em 5 de abril e com término previsto para 4 de maio, mobiliza cerca de 2,3 mil profissionais e 120 empresas prestadoras de serviço. Dividida em duas etapas, de 5 a 14 de abril na fábrica 1 e de 15 de abril a 4 de maio na fábrica 2. Até lá, não há vagas em hotéis da região.
Lotação – Dados confirmados pela Secretaria Municipal de Turismo e Cultura apontam que os meios de hospedagem atingiram 100% de ocupação nas datas da parada, cenário que se repete em levantamentos feitos junto a hotéis da cidade.
No Vila Romana Park Hotel, não há disponibilidade até o início de maio. O mesmo ocorre no Mediterrâneo Park Hotel, que também opera sem vagas durante todo o período. Já no Hotel OT, com 86 apartamentos e duas suítes (160 leitos), o sistema de reservas indica disponibilidade apenas a partir de 11 de maio. A administração confirma que a alta procura está diretamente ligada à sazonalidade provocada pela parada industrial.
Mesmo com o aumento de leitos nos últimos 7 anos, muitos visitantes não encontraram vagas em Três Lagoas e foram orientados a buscar hospedagem em cidades vizinhas, como Andradina (SP), Castilho (SP) e Ilha Solteira (SP), no interior de São Paulo.
Atualmente, além das 2 unidades da Suzano em Três Lagoas, o município abriga também a Eldorado Brasil. Já Ribas do Rio Pardo conta com uma mega fábrica da Suzano, que teve a parada de manutenção em março, também com esgotamento da rede hoteleira. Inocência recebe investimentos para implantação de uma unidade da Arauco e nos próximos meses a Bracell deve começar obra em Bataguassu
Em municípios menores, os números de hotéis ainda são mais modestos. Dados do Cadastur mostram que, em 2026, Ribas do Rio Pardo possui 1 meio de hospedagem com 408 leitos; Bataguassu conta com 2 estabelecimentos e 110 leitos; e Inocência soma 10 meios de hospedagem e 676 leitos cadastrados. Segundo o Observatório, por se tratar de um cadastro declaratório, os números podem não refletir a totalidade dos empreendimentos em operação, mas indicam a estrutura formal existente.
Apesar da expansão recente, o Observatório do Turismo de MS destaca que não há base sistematizada anterior a 2018 que permita mensurar com precisão o crescimento da rede hoteleira desde a instalação da primeira fábrica de celulose em Três Lagoas, em 2009. Ainda assim, os dados atuais evidenciam uma correlação direta entre o avanço industrial e o fortalecimento da infraestrutura turística.
Alta temporada da indústria
O secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação de Três Lagoas, Marcos Antônio Gomes Júnior, confirma que as paradas gerais industriais, realizadas em média a cada 18 meses, provocam impactos diretos em diversos setores da cidade. Ele compara esses períodos a uma espécie de “alta temporada”. Mesmo sem turismo consolidado como regiões litorâneas, a movimentação industrial sustenta o comércio e contribui para a arrecadação, especialmente por meio do ISS.
O secretário também destacou que o município vem se consolidando como polo da construção civil ligado ao setor de celulose. Empresas globais, como Valmet e Andritz, estão se instalando na cidade. Uma delas prevê a implantação de um parque fabril com cerca de 50 mil metros quadrados. A expectativa é que parte relevante das atividades de manutenção do setor de celulose no Brasil passe a ser realizada a partir de Três Lagoas, ampliando ainda mais sua importância no segmento.
Ele diz que o município conta atualmente com mais de dois mil leitos formais em hotéis cadastrados, além de ampla rede de alojamentos, o que permite receber mais de 10 mil pessoas simultaneamente, incluindo estruturas adaptadas para grandes grupos de trabalhadores.
Ele citou que, conforme o Observatório de Turismo, há 31 empresas registradas na Costa Leste, sendo 18 em Três Lagoas. No entanto, a estimativa é de que o município tenha cerca de 55 empresas no setor, indicando estrutura mais ampla do que a refletida nos cadastros formais.
Essa capacidade tem permitido à cidade sediar eventos esportivos estaduais que antes não eram realizados no município. Segundo o secretário, há empresas locais aptas a fornecer alimentação em grande escala, atendendo públicos entre 5 mil e 10 mil pessoas. Como exemplo, ele citou o grupo Brutus, especializado em churrasco, que atende grandes eventos e já realizou fornecimentos para empresas como a Suzano, servindo até 7 mil pessoas de uma só vez.
Apesar do fortalecimento das empresas locais, ainda há necessidade de mão de obra de fora, principalmente durante as paradas industriais. Segundo o secretário, isso ocorre porque Três Lagoas vive situação de pleno emprego, o que limita a absorção da demanda. Ainda assim, ele observa evolução técnica das empresas locais, muitas das quais já prestam serviços em outras regiões do país.
O perfil desses trabalhadores também chama atenção. São profissionais especializados que circulam pelo Brasil conforme um calendário anual de manutenções industriais, permanecendo por períodos curtos em cada local. Com a expansão do setor e a possibilidade de novos empreendimentos, a expectativa é de aumento no número de paradas ao longo do ano, podendo chegar a cinco em determinados períodos, o que representa volume expressivo de recursos na economia local.
Desde a chegada das indústrias, por volta de 2009, a cidade passou de cerca de 60 mil habitantes para mais de 140 mil, segundo o IBGE.
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