MS mantém taxa de quase 68% de cesáreas e estudo alerta para novo fator de risco

Pesquisa identificou maior probabilidade de câncer de placenta entre pacientes com histórico de cesarianas Bebê sendo retirado da barriga da mãe por parto cesariano, em ambiente hospitalar (Foto: R7) Sete em cada dez partos realizados em Mato Grosso do Sul ocorrem por cesariana. A proporção, que chegou a 67,6% em 2025, manteve-se praticamente estável nos...


Pesquisa identificou maior probabilidade de câncer de placenta entre pacientes com histórico de cesarianas

Bebê sendo retirado da barriga da mãe por parto cesariano, em ambiente hospitalar (Foto: R7)

Sete em cada dez partos realizados em Mato Grosso do Sul ocorrem por cesariana. A proporção, que chegou a 67,6% em 2025, manteve-se praticamente estável nos cinco primeiros meses deste ano, em 67,7%. Os números ganham relevância após pesquisadores identificarem que a cirurgia pode representar um fator adicional de risco para o desenvolvimento de um tipo raro de câncer em mulheres que tiveram mola gestacional.

Pesquisadores da UFRJ identificaram risco 45% maior de neoplasia trofoblástica gestacional em mulheres com histórico de cesariana que desenvolveram mola gestacional. O dado preocupa especialmente no Mato Grosso do Sul, onde 67,7% dos partos são cesáreos. O estudo analisou 2.904 pacientes entre 2002 e 2022 e aponta que a cicatriz uterina pode facilitar a invasão de células anormais. Especialistas reforçam que a cirurgia é essencial quando indicada, mas seus riscos de longo prazo devem ser considerados.

A mola gestacional é uma alteração rara provocada por uma fecundação anormal. No lugar de uma placenta saudável, forma-se um tecido anormal dentro do útero, tornando a gravidez inviável. Em alguns casos, não há formação de embrião; em outros, há um feto com alterações genéticas incompatíveis com a vida.

De janeiro a maio de 2026, Mato Grosso do Sul registrou 12.768 partos, dos quais 8.647 foram cesáreas. Em todo o ano passado, foram contabilizados 39.334 nascimentos, sendo 26.600 por procedimento cirúrgico, conforme dados do DataSUS (Departamento de Informações do SUS).

O alerta vem de um estudo liderado por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que encontrou risco 45% maior de neoplasia trofoblástica gestacional entre pacientes que já haviam passado por cesariana.

Essa conclusão não significa que mulheres submetidas a cesáreas tenham, de maneira geral, risco 45% maior de desenvolver câncer. A associação foi identificada especificamente entre pacientes que posteriormente apresentaram uma mola gestacional.

No estudo, 26,5% das mulheres com histórico de cesariana desenvolveram a neoplasia, ante 20,8% entre aquelas que nunca haviam passado pela cirurgia. Os pesquisadores afirmam que outros fatores que poderiam interferir no resultado foram controlados durante a análise.

A médica Gabriela Paiva, líder da pesquisa, explica que a principal hipótese é de que a cicatriz deixada pela cesárea torne uma região do útero mais vulnerável à invasão das células da mola.

“A cicatriz da cesárea é uma área frágil dentro do útero”, afirma. Segundo ela, essa região poderia funcionar como uma “porta de entrada” e facilitar o avanço da doença para a parede uterina.

O coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da UFRJ, Antônio Braga, ressalta que a cesariana continua sendo um procedimento essencial quando há indicação médica.

“Cesariana é uma cirurgia salvadora de vidas, muito importante para garantir a segurança da mãe e do bebê”, afirma. O pesquisador pondera, porém, que o procedimento deve ser realizado de forma consciente e que o novo achado precisa ser considerado entre os possíveis riscos de longo prazo.

A pesquisa analisou dados de 2.904 pacientes atendidas entre 2002 e 2022 na Maternidade Escola da UFRJ e no Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, ligado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Segundo os autores, a neoplasia trofoblástica gestacional é a consequência mais grave da mola. Em até 20% dos casos, as células anormais permanecem no útero e evoluem para câncer.

Braga destaca que o acompanhamento em unidades especializadas é decisivo para reduzir complicações. “É fundamental que essas mulheres sejam atendidas em um centro de referência”, afirma.

O tratamento inclui a retirada da mola, o acompanhamento periódico dos níveis do hormônio hCG (gonadotrofina coriônica humana) e, quando há evolução para câncer, quimioterapia. De acordo com o pesquisador, a maioria das pacientes tratadas adequadamente alcança a cura e pode voltar a engravidar.



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