Suicídios de policiais civis e militares foram seis vezes mais numerosos do que as mortes violentas intencionais registradas entre integrantes das duas corporações em Mato Grosso do Sul entre 2024 e 2025. Foram seis suicídios contra uma morte em confronto ou por lesão não natural fora de serviço. Nenhum profissional morreu em confronto durante o trabalho.
Em Mato Grosso do Sul, suicídios de policiais civis e militares foram seis vezes mais frequentes do que mortes violentas entre 2024 e 2025, com seis casos registrados contra uma única morte fora de serviço, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026. Apesar de o número cair 50% em 2025, a taxa sul-mato-grossense permaneceu 23% acima da média nacional. No Brasil, os suicídios policiais recuaram de 126 para 110 casos, mas seguem como principal causa de morte na categoria.
Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 e consideram policiais da ativa. A única morte violenta registrada no Estado no período foi a de um policial militar fora de serviço, em 2024.
A categoria reúne mortes decorrentes de homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, mas não considera acidentes de trânsito nem suicídios.
Em 2024, quatro policiais morreram por suicídio em Mato Grosso do Sul, sendo três militares e um civil. Em 2025, foram mais dois casos, um em cada corporação. Assim, dos seis registros do biênio, quatro envolveram policiais militares e dois, policiais civis.
Apesar de continuar como a principal causa de morte entre esses profissionais, o número de suicídios caiu 50% de um ano para o outro no Estado. A taxa passou de 0,54 para 0,27 caso por mil policiais da ativa.
A redução fez Mato Grosso do Sul recuar no ranking nacional. Em 2024, o Estado apresentou a terceira maior taxa de suicídio policial do País, atrás apenas do Paraná, com 0,70 caso por mil profissionais, e do Rio Grande do Sul, com 0,68.
Já em 2025, MS ficou empatado com o Rio Grande do Norte na 11ª posição, com taxa de 0,27. Dez unidades da Federação apresentaram índices maiores. Mesmo após a queda, porém, a taxa sul-mato-grossense permaneceu aproximadamente 23% acima da média brasileira, de 0,22 por mil policiais.
Histórico – A posição de Mato Grosso do Sul já havia chamado a atenção em levantamentos anteriores. Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, o Estado apresentou a maior taxa de suicídios entre policiais do País em 2023. Naquele ano, foram quatro casos e uma taxa de 0,6 por mil profissionais da ativa.
A sequência mostra que MS saiu da primeira posição em 2023 para a terceira em 2024 e, posteriormente, para a 11ª em 2025. Embora indique uma redução, o número absoluto de casos permaneceu igual entre 2023 e 2024 e somente caiu no ano seguinte.
Em janeiro de 2025, o tema voltou à tona após o suicídio do policial civil Eduardo Jordão, de 51 anos, encontrado morto no alojamento da Derf (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos), em Campo Grande.
Na época, o coordenador do CABS (Centro de Atenção Biopsicossocial) da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), Ivan Gibim, afirmou ao Campo Grande News que os servidores, especialmente os policiais, enfrentam forte pressão no exercício da profissão. “O servidor trabalha com uma pressão muito grande. Da população, da imprensa, tudo isso gera uma pressão enorme sobre ele”, afirmou.
Para o coordenador, parte do problema está relacionada à cultura formada ao longo de décadas dentro das instituições policiais, marcada pela ideia de que o profissional deve suportar pressões e situações traumáticas sem demonstrar fragilidade. “Na minha época, em 1981, quando entrei na Polícia Militar, dizia-se: ‘Nós temos que enfrentar’. E isso ficou por muito tempo. Nós tínhamos que trabalhar e aguentar”, relembrou.
Cenário nacional – No Brasil, os suicídios de policiais civis e militares recuaram de 126 em 2024 para 110 em 2025, queda de 12,7%. A redução foi menor do que a registrada em Mato Grosso do Sul.
Em 2025, o País também contabilizou 59 mortes violentas intencionais de policiais fora de serviço e 29 durante o trabalho. No ano anterior, foram 84 mortes fora de serviço e 32 em serviço.
Apesar da diminuição mais recente, o Anuário aponta que o suicídio continua sendo o principal vetor de mortalidade entre policiais. “O suicídio permanece como a principal causa de morte entre policiais civis e militares”, destaca a publicação.
Segundo o documento, os números contrariam a percepção de que o maior risco da atividade policial está concentrado exclusivamente nos confrontos com criminosos. A exposição à violência também permanece durante a folga, enquanto a mortalidade desses profissionais precisa ser analisada sob a perspectiva da saúde mental e das condições de trabalho.
A série histórica revela crescimento de 37,8% nos suicídios policiais desde 2017, considerando as mesmas 20 unidades da Federação que apresentaram informações naquele ano. Foram 74 casos em 2017 e 102 em 2025 entre esses estados. Consideradas todas as unidades com dados disponíveis em 2025, o total chegou a 110.
O Anuário também identifica, na cultura institucional, a valorização da coragem, da resistência e da disponibilidade permanente para o confronto. Esse padrão, segundo a publicação, pode transformar o sofrimento psíquico em sinal de fraqueza e fazer com que manifestações de ansiedade, depressão, exaustão e estresse pós-traumático sejam ocultadas pelos próprios policiais.
A publicação defende que os programas de assistência psicológica sejam acompanhados de mudanças permanentes nas corporações, com a incorporação da saúde mental aos processos de formação e gestão, além da adoção de protocolos de acolhimento, acompanhamento e prevenção.