Muito antes do Consórcio Guaicurus, ônibus marcaram gerações em Campo Grande

Venda das empresas traz de volta memórias de quem viveu a história do transporte coletivo Passagem do tempo de Lucas Matheus Mariano acompanhado do pai Alcides e da irmã Denise (Foto: Arquivo pessoal) A venda das empresas que integram o Consórcio Guaicurus ao grupo HP Mobilidade, anunciada pela Prefeitura de Campo Grande nesta terça-feira (21),...


Venda das empresas traz de volta memórias de quem viveu a história do transporte coletivo

Passagem do tempo de Lucas Matheus Mariano acompanhado do pai Alcides e da irmã Denise (Foto: Arquivo pessoal)

A venda das empresas que integram o Consórcio Guaicurus ao grupo HP Mobilidade, anunciada pela Prefeitura de Campo Grande nesta terça-feira (21), despertou a memória de um período em que o transporte coletivo da Capital era operado por diferentes companhias, cada uma com identidade própria e presença marcante no dia a dia dos passageiros.

A venda das empresas do Consórcio Guaicurus ao grupo HP Mobilidade reacendeu memórias afetivas de campo-grandenses sobre o transporte coletivo da capital. Antes do consórcio, criado em 2012, a cidade era atendida por operadoras como Viação São Francisco, Cidade Morena e Jaguar, que marcaram gerações de famílias. Moradores recordam as identidades visuais das empresas, os passes de papel estudantis e a implantação do Sistema Integrado de Transporte, em 1991, como marco do setor.

Muito antes da criação do Consórcio Guaicurus, em 2012, a cidade era atendida por operadoras como Viação São Francisco, Cidade Morena e Jaguar. Além de transportar milhares de passageiros, elas também ajudaram a escrever a história de muitas famílias campo-grandenses, como a do professor de Educação Física Lucas Matheus Mariano.

Ele conta que transporte coletivo atravessou gerações. Seu pai foi motorista entre 1987 e 1990. Mais tarde, dois tios também trabalharam no setor. Um deles atuou como atendente entre 1991 e 1994. O sogro de Lucas continua na profissão e completa, em agosto, 40 anos de empresa.

Em 2006, foi a vez de Lucas, que ingressou na Viação São Francisco. Permaneceu no sistema até 2024, passando por praticamente todas as funções operacionais. Foi cobrador, manobrista, motorista, fiscal e porteiro. Mesmo depois de formado em Educação Física, conciliou durante anos as aulas na rede municipal com o trabalho na empresa.

“Minha paixão não era o ônibus em si. Era a Viação São Francisco. Eu amava aquele lugar pelas pessoas.”

Segundo ele, a empresa possuía uma identidade própria. “O senhor Ramão Delmondes era um visionário. Sempre comprava ônibus diferentes das outras empresas.”

Lucas viveu também a transição entre o antigo modelo e o atual. Entrou quando ainda existia a Viação São Francisco e saiu já durante a operação do Consórcio Guaicurus. Quando a empresa encerrou as atividades e os funcionários foram transferidos para a Viação Campo Grande, permaneceu apenas alguns meses antes de deixar definitivamente o setor.

A história da família também ficou registrada em fotografias. Em uma delas, feita em 1988, Lucas e a irmã ainda aparecem crianças ao lado do pai, em frente ao ônibus que ele dirigia. Décadas depois, em 2021, eles repetiram o mesmo registro já adultos, transformando a imagem em um retrato da passagem do tempo.

Muito antes do Consórcio Guaicurus, ônibus marcaram gerações em Campo Grande
Lucas Matheu quando era motorista e acompanhado do filho (Foto: Arquivo pessoal)

Passeio em família – Para a agente de conservação e asseio Luciana de Souza Pereira, as lembranças passam pela família. Seu pai, Otaciano Modesto Pereira, falecido há oito anos, foi motorista de ônibus quando ela ainda nem havia nascido. Mesmo sem guardar fotografias daquela época, cresceu ouvindo suas histórias.

As recordações também incluem a antiga rodoviária de Campo Grande onde faziam o transbordo, quando a família se deslocava do bairro São Conrado para visitar os avós, no Conjunto José Abrão.. “Enquanto esperávamos o ônibus, passeávamos pelas lojas, comíamos salgados. Para mim era mágico.”

Ao recordar aquele período, a emoção aparece naturalmente.

“Estou até emocionada agora lembrando de tudo isso.”

Lembranças – Entre as pessoas que têm forte ligação afetiva com os antigos ônibus, está o corretor de imóveis José Carlos dos Santos, de 56 anos. Em entrevista ao Campo Grande News, ele conta que começou a usar ônibus diariamente aos 12 anos, quando estudava na Escola Estadual São José. Morador do bairro Estrela do Sul, depois cursou o ensino médio na Escola Oswaldo Cruz.

Naquela época, lembra, ainda não existia o SIT (Sistema Integrado de Transporte), implantado em 1991. Quem precisava trocar de ônibus no Centro pagava uma nova passagem. “Praticamente o único meio de locomoção era o ônibus. Táxi era caro e não existiam os aplicativos de transporte”, recorda.

Muito antes do Consórcio Guaicurus, ônibus marcaram gerações em Campo Grande
Ônibus que atuavam no transporte em Campo Grande(Foto: Lucas Matheus/Arquivo pessoal)

José Carlos lembra com facilidade dos veículos que cruzavam a cidade. “A São Francisco era azul e branca. A Jaguar era ocre com bege. A Cidade Morena tinha ônibus bege claro. Depois todos ficaram vermelhos, pouco antes da implantação do sistema integrado.”

Para ele, a integração representou um avanço importante ao permitir que o passageiro utilizasse apenas uma passagem para fazer baldeações nos terminais.

Apesar da nostalgia, ele reconhece que a cidade mudou junto com o transporte. “Campo Grande era menor, tinha menos habitantes. Era um tempo bom, muito saudoso. O transporte tinha problemas, claro, mas não tantos quanto hoje.”

José também se recorda dos antigos passes de papel utilizados pelos estudantes durante o mês inteiro e diz acompanhar, até hoje, publicações sobre a história do transporte coletivo na internet.

Página na internet – Nas redes sociais, essas lembranças seguem frescas na página “Ônibus Antigos de Campo Grande MS”, no Facebook. O espaço reúne fotografias, relatos e comentários de pessoas que preservam a memória do transporte coletivo da Capital.

Em entrevista ao Campo Grande News, Alessandro Vargas, um dos leitores da página, lembra com carinho das idas à garagem da Cidade Morena para retirar o passe estudantil. Acompanhado da mãe e do irmão, enfrentava filas com centenas de famílias para apresentar a carteirinha e garantir o benefício.

Para facilitar o processo, ele plastificou o documento, iniciativa que recebeu elogios de um atendente da empresa e foi citada como exemplo aos demais usuários que aguardavam na fila. “Fiquei muito orgulhoso daquele reconhecimento”, relembra. Procurados pela reportagem para comentar a repercussão da página, os administradores não responderam até a publicação desta matéria.

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