Junto da mulher, artesão não deixa nada do chifre bovino se perder e também produz até cuias e chaveiros
Do chifre do boi, Valmir Estevão e dona Fátima Souza não deixam sobrar nada. O que chega bruto do frigorífico vira arte nas mãos do casal, com peças de berrantes que podem custar até R$ 3,5 mil, cuias de tereré, copinhos de dose, chaveiros e até calçadeiras. Tudo é aproveitado, sem desperdício.
Mas foi além da produção que Valmir se desafiou. Para garantir a qualidade e a sonoridade de cada peça, ele mesmo tratou de aprender a tocar berrante. “Tive que aprender para testar, para o cliente levar um instrumento funcionando para casa”, conta. Hoje, o que começou por necessidade também virou habilidade, e até apresentação em eventos.
Segundo ele, o trabalho começa cedo. “A gente vai de madrugada no frigorífico buscar os chifres, separa e começa a produção”, explica. Depois, o material passa por várias etapas. “Passa a lixa grossa, lixa fina, acabamento manual e polimento até ganhar forma e brilho”, detalha.
Apesar de um berrante poder ficar pronto em um dia, o processo exige dedicação. E não é só o visual que muda de uma peça para outra. “O pequenininho tem som de bezerro. Aí vai aumentando, melhora o som, até chegar nos grandes, que têm som mais forte”, detalha. Os preços acompanham e vão de R$ 150 até R$ 3.500.
Segundo o artesão, o ofício exige mais do que técnica e é preciso gostar do que faz. “É um trabalho sujo, difícil. Os chifres chegam com cheiro forte e tem que gostar da cultura, do gado, do berrante. Tem que amar mesmo”, afirma.
Enquanto Valmir se dedica aos berrantes, dona Fátima garante que nenhuma parte do chifre seja descartada. “Tudo a gente aproveita. Da ponta faz copinho, o restante vira pegador de erva, chaveiro, calçadeira. As cuias também vendem bastante”, diz.
Os produtos menores têm preços mais acessíveis. “As cuias custam entre R$ 30 e R$ 40, os copinhos R$ 20, e os pegadores também nessa base”, completa.
Há seis anos na atividade, o casal já pensa no futuro da tradição. “Queremos abrir um sindicato, dar cursos, porque não tem mão de obra. É um serviço que suja muito, então pouca gente quer aprender”, explica Fátima.

Ela também se diz preocupada com a matéria-prima. “O gado está ficando sem chifre. A gente já testou fazer de fibra de vidro, e deu certo, mas por enquanto seguimos com o natural”, afirma.
Além do uso no campo, o berrante também ganhou espaço como instrumento musical, e Valmir faz questão de mostrar isso na prática. “A gente usa em abertura de rodeio, em palco. Dá um toque de berrante, entra a sanfona e o baile já começa”, conta.
Com peças que já cruzaram fronteiras e chegaram até países como Japão e Estados Unidos, o casal diz que é realizado por transformar a tradição em sustento. “Hoje é o que faz a gente feliz”, finaliza Valmir.
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