A reportagem ouviu deles que os maiores problemas são atrasos, ônibus que não param e redução de veículos
No dia seguinte ao decreto de intervenção da prefeitura no Consórcio Guaicurus, empresa que controla o transporte coletivo de Campo Grande, a reportagem foi às ruas ouvir a opinião de quem depende dessa opção para ir e vir na cidade.
Moradores de Campo Grande relatam insatisfação com o transporte público após a prefeitura decretar intervenção no Consórcio Guaicurus. Usuários ouvidos pela reportagem reclamam de ônibus lotados, atrasos e frota reduzida aos sábados. A medida, inédita na cidade, prevê afastamento da direção do consórcio e prazo de 180 dias para diagnóstico financeiro e operacional, após relatório que apontou irregularidades no serviço.
Entre cinco pessoas entrevistadas, apenas uma compreendia um pouco o que a medida representa. O que a maioria pensa é que não importa como será feito, o que vale é ver alguma mudança na prática.
Vendedora de uma loja de tecidos do Jardim dos Estados e moradora da Vila Nasser, Maria Inácia Barbosa Soares, 60, acha ótimo que a prefeitura esteja agindo para tentar mudar a situação, pois “está muito ruim o transporte, os ônibus são horríveis, vivem lotados e não param no ponto quando estão muito cheios”, disse.
Ela pega quatro ônibus diariamente. Relata às vezes chegar atrasada no trabalho porque o veículo esperado não parou no ponto. Na hora de voltar para casa, ainda tem que aguardar 40 minutos para pegar o primeiro transporte na Avenida Mato Grosso, mesmo sendo uma via central para o transporte coletivo. As suas maiores dificuldades são com as linhas 224, 226 e 225.
Laudson Gonçalves Roris, 29, é operador de empilhadeira numa empresa localizada na região do Parque dos Poderes e mora no Bairro Caiobá. A distância é longa. Ele disse que ainda não havia pesquisado sobre a intervenção, mas que já vê a medida com desânimo.
“Fazem muitas promessas de melhoras, mas, na prática, não tem melhora. Até agora não cumpriram nada”, falou.
O trabalhador observa que as ruas de seu bairro estão tão precárias quanto a situação de alguns ônibus antigos. “Não adianta cobrar só da empresa de transporte, sendo que as estradas estão sem asfalto, em péssimas condições”, frisou. Ele também reclamou da baixa quantidade de veículos rodando fora dos horários de pico.
A vendedora e diarista Josefa Marques de Souza, 67, já começa criticando o transporte. “É uma negação, nunca vem no horário, ônibus quebram toda hora”, afirma. Hoje (17), ela estava com um veículo que teve pane mecânica. “Minha amiga teve que ir andando da Rua 26 de Agosto até a Rua Maracaju por causa disso”, relata.
O que a idosa e trabalhadora espera é que, pelo menos, os ônibus passem no horário que estão programados para passar em cada ponto de embarque. Igual a Laudson, ela está insatisfeita principalmente com o que ocorre fora dos horários de maior fluxo no trânsito. “Depois do horário de pico, é muito demorado. Os ônibus estão sempre cheios, mas demoram uns 40 minutos para passar”, finaliza.
Nair Costa, 55, não trabalha porque tem um problema de saúde. Geralmente, precisa de ônibus quando precisa buscar algum remédio para o marido ou para ela mesma, como era o caso no momento da entrevista. A única opção condizente com a renda dos dois é o transporte público.
“Sou a pessoa da família que mais corre para resolver tudo, então, eu espero que coloquem mais ônibus nas linhas e que eles passem nos horários certos, sem atrasos”, pede Nair.
Íris Gonçalves dos Santos, 18, foi quem demonstrou maior conhecimento sobre a intervenção. Ela disse que aprova.
Vendedora de uma loja de carros na Rua Ceará e moradora do Jardim Aeroporto, ela vê como os dois maiores problemas os atrasos devido à lotação e a redução da frota que roda aos sábados.
“No meu bairro, normalmente quando um atrasa logo vem um atrás do outro, mas se está lotado, ele não para. Quando eu chego atrasada no trabalho, falo que ‘foi o ônibus de novo’. Hoje, foi a mesma coisa, estava no ponto desde as 6h30 e nada do ônibus. Espero que com a invervenção dê uma melhorada, porque o transporte público na nossa cidade está muito precário”, diz.
Como ela trabalha aos sábados, precisa encarar o serviço no dia que considera mais caótico. “É pior ainda, porque tenho que acordar 1h mais cedo, já que diminuem a quantidade de ônibus. Se eu perder, tenho que esperar o próximo passar, e demora 1h30”, conclui.
O que é – A intervenção é uma medida inédita em Campo Grande, tomada ontem (16) pela prefeitura e de caráter temporário. Ela prevê o afastamento da direção do consórcio e o prazo de até 180 dias para uma comissão municipal levantar dados financeiros, administrativos e operacionais do Consórcio Guaicurus.
A decisão vem após a entrega de um relatório que apurou irregularidades na prestação do serviço à população. O foco inicial, segundo a equipe interventora, não é alterar imediatamente linhas, horários ou frota, mas dar um diagnóstico sobre a real situação da concessão do serviço ao Consórcio Guaicurus.



