Praça depredada e sem placa é o que restou de homenagem a menino assassinado

Seis anos após a lei batizar o local, mãe de Dudu lamenta falta de placa e abandono da área de lazer Eliane guarda até hoje a publicação que oficializou a homenagem ao filho (Foto: Osmar Veiga) “Não tem nem o murinho com o nome do neném”. A frase, dita pela salgadeira e comerciante Eliane Aparecida...


Seis anos após a lei batizar o local, mãe de Dudu lamenta falta de placa e abandono da área de lazer

Eliane guarda até hoje a publicação que oficializou a homenagem ao filho (Foto: Osmar Veiga)

“Não tem nem o murinho com o nome do neném”. A frase, dita pela salgadeira e comerciante Eliane Aparecida Martins, de 52 anos, resume a frustração de uma mãe que esperava ver o filho eternizado no bairro onde viveu.

Seis anos após a Prefeitura de Campo Grande oficializar a criação da Área de Recreação e Lazer Dudu, em homenagem a Luiz Eduardo Martins Gonçalves, assassinado aos 10 anos em 2007, a praça no Jardim das Hortênsias segue sem identificação e tomada pelo abandono. A mãe, Eliane Martins, 52 anos, guarda uma cópia do Diário Oficial que registrou a homenagem ao filho, morto pelo ex-padrasto por vingança.

Seis anos após a Prefeitura de Campo Grande oficializar a criação da Área de Recreação e Lazer Dudu – Luiz Eduardo Martins Gonçalves, a praça que deveria preservar a memória do menino assassinado brutalmente aos 10 anos permanece sem qualquer identificação e tomada pelo abandono. O totem que normalmente identifica o nome da praça nunca foi instalado.

Ao chegar do mercado ao bar que mantém na esquina da praça, no Jardim das Hortênsias, na região do Aero Rancho, Eliane mostra uma cópia plastificada da edição do Diogrande (Diário Oficial) publicada em novembro de 2020, que oficializou a homenagem ao filho. O documento ficou por anos exposto na parede do estabelecimento, na esperança de que um dia fosse substituído pela placa prometida.

“Eu guardo esse papel desde quando saiu. Queria ver o murinho com o nome dele. Nem inauguração simbólica teve. Na época, o presidente do bairro tentou correr atrás para a gente, mas não deu certo. Acho que nem esse murinho vai sair”, lamenta, chamando o filho pelo apelido carinhoso de “neném”.

Praça depredada e sem placa é o que restou de homenagem a menino assassinado
Escorregador é o único brinquedo que permanece no parquinho da praça. (Foto: Osmar Veiga)

A área de lazer fica no quadrilátero formado pela Avenida Arquiteto Vilanova Artigas e pelas ruas Prímula, Gérbera e Caládio, no Jardim das Hortênsias I. Apesar da homenagem oficial, quem passa pelo local não encontra qualquer referência a Dudu.

A praça também acumula sinais de abandono. O prédio da associação de moradores está fechado e deteriorado, com janelas quebradas. A academia ao ar livre tem nove aparelhos, a maioria sem manutenção, e do parquinho infantil restou apenas um escorregador. Ao lado, pneus cercam um campo de futebol de terra.

Praça depredada e sem placa é o que restou de homenagem a menino assassinado
Campo de futebol de terra integra a praça em homenagem a Dudu. (Foto: Osmar Veiga)

Eliane conta que sempre morou entre os bairros Jardim das Hortênsias e Aero Rancho. Após o assassinato do filho, chegou a deixar a região por um período, mas acabou voltando. Ainda hoje, diz sofrer ao lembrar do crime e, principalmente, ao encontrar pessoas que tiveram envolvimento no caso. “O sentimento é horrível. Esses dias eu estava sentada ali e chegou um rapaz que teve envolvimento na época para pedir um cigarro. Levantei e saí. Passei mal”, relata.

Ela afirma que sonhava em ver a área bem cuidada, frequentada pelas famílias e com o nome do filho preservado. “Queria a praça arrumadinha, com o nome dele e banquinhos para as pessoas sentarem. Era um espaço para o pessoal se reunir”, diz.

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Márcia Veríssimo mostra à reportagem as condições da associação de moradores da praça. (Foto: Osmar Veiga)

Moradora do bairro há 30 anos, a agente operacional Márcia Veríssimo, de 52 anos, lembra que o espaço já viveu dias melhores. “Nós fomos umas das primeiras moradoras daqui. Antes tinha curso na associação, havia mais brinquedos no parquinho e vinham crianças de outros bairros brincar. Hoje está tudo abandonado.”

Ela mostra à reportagem que uma das três esculturas de araras que ornamentavam a praça está caída e quebrada. Os balanços desapareceram e sobraram poucos equipamentos de lazer.

Praça depredada e sem placa é o que restou de homenagem a menino assassinado
Atanázio afirma que a praça tem potencial, mas precisa de cuidados. (Foto: Osmar Veiga)

O militar da reserva Atanázio Lopes Santa Cruz, de 73 anos, mora no bairro há quatro anos e diz que desconhecia a história da homenagem. Mesmo assim, acredita que a praça poderia ser mais bem aproveitada. “O espaço tem potencial. Ano passado ainda teve barracas aqui, acho que por causa de algum evento. É um espaço bom, mas precisa de cuidado.”

Aguardando ônibus em uma das ruas principais do bairro, a aposentada Marcilene Vieira da Silva, de 72 anos, vive na região há mais de 30 anos e conheceu Dudu. Ela admite que nem sabia o nome oficial da praça. “Fico arrepiada só de lembrar dessa história”, disse.

Caso – Dudu desapareceu em 22 de dezembro de 2007, aos 10 anos. As investigações apontaram que ele foi espancado até a morte por adultos e adolescentes conhecidos da família. Após o homicídio, o corpo foi enterrado em um terreno baldio e, dias depois, desenterrado, esquartejado e enterrado novamente pelos autores.

O ex-padrasto da vítima, José Aparecido Bispo da Silva, conhecido como Cido, foi condenado a 26 anos de prisão. Segundo a investigação, ele matou o menino para se vingar da ex-companheira. Holly Lee recebeu pena de 24 anos e 10 meses pelo homicídio. Os dois já cumpriram as penas, passaram pelo regime semiaberto e hoje estão em liberdade. Os demais envolvidos eram adolescentes na época dos fatos. Atualmente, Cido mora em outro bairro.

O pai de Dudu, Roberto Gonçalves, dedicou anos à busca por justiça e acompanhou todo o processo que resultou na condenação dos responsáveis pelo crime. Anos depois, morreu em decorrência de um câncer de próstata. A casa onde vivia com o filho, no Jardim das Hortênsias, acabou sendo vendida pela família.

A reportagem procurou a Prefeitura de Campo Grande para saber por que a praça segue sem identificação, quais são os motivos da falta de manutenção e se há previsão de instalar a placa com o nome de Dudu e recuperar o espaço. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Praça depredada e sem placa é o que restou de homenagem a menino assassinado
De camiseta azul, o pai de Dudu acompanhaou o sepultamento do filho à época, realizado quase três anos após o assassinato. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

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