Reportagem apurou sete casos com tiros, duas mortes e ao menos oito feridos no bairro até esta segunda-feira
“Se você vê, tem que se fazer de cega, de muda e de surda.” A frase de uma moradora de 63 anos resume a rotina de medo relatada por quem vive há décadas na Vila Nhanhá, em Campo Grande. Ela pediu para não ser identificada por receio de represálias.
Moradores da Vila Nhanhá, em Campo Grande, vivem sob constante clima de medo e evitam comentar o que presenciam nas ruas por receio de represálias. Levantamento do Campo Grande News aponta que, entre janeiro e julho deste ano, oito ocorrências com disparos registraram duas mortes e ao menos dez feridos no bairro. O caso mais recente ocorreu na madrugada desta segunda-feira, quando uma adolescente de 17 anos e um jovem de 19 foram baleados dentro de uma residência.
Moradora da região há cerca de 48 anos, a idosa afirma que a violência havia diminuído por um período, mas voltou a crescer. Segundo ela, os fins de semana costumam concentrar brigas e ocorrências mais graves.
“Aqui é violência lascada. Final de semana é briga e, às vezes, sai morte. Melhorou por um tempo, agora começou a piorar. É horrível”, afirmou.
Ela diz que, para continuar vivendo no bairro, os moradores evitam comentar o que acontece nas ruas. “A gente não mexe com ninguém. É assim que a gente vive. Aqui você tem que pensar no que vê e no que fala”, disse.
A moradora também teme ser atingida por uma bala perdida, embora afirme nunca ter presenciado diretamente um ataque. As informações sobre os crimes chegam por relatos de vizinhos e pelas notícias.
“Eu tenho medo. Deus me livre. Aqui você não pode falar. Se vê alguma coisa, tem que se fazer de cega, muda e surda”, relatou.
Outra moradora, de 68 anos, vive no bairro há 35 anos e também pediu para não ser identificada. Ela afirma que evita sair sozinha e não passa pela área dos becos, onde, conforme relatos de moradores, concentra-se grande parte dos usuários de drogas e são registradas ocorrências de furtos e roubos.
“A gente vive com medo. Eu nem saio muito de casa sozinha. Ali para baixo eu tenho medo de descer, eu não vou”, contou.

Segundo a idosa, a região já atravessou períodos mais violentos, passou por uma redução nos homicídios e voltou a registrar mortes recentemente.
“Quando eu mudei para cá, era todo dia um morto. Depois parou por um tempo. Nunca mais tinha matado ninguém. Agora começou de novo. De uns dias para cá, já foram três ou quatro. Eu vejo no jornal”, disse.
Ela relata ainda a presença frequente de usuários de drogas em uma esquina próxima de sua casa, principalmente durante a noite.
“Você pode ir ali à noite e tem uns 20 usuários”, afirmou.
Na avaliação da moradora, o movimento aumentou depois do fechamento da antiga rodoviária de Campo Grande, quando parte das pessoas que circulavam pela região central passou a frequentar o bairro.
Casos recentes – O episódio de violência mais recente ocorreu na madrugada desta segunda-feira (27). Uma adolescente de 17 anos e um rapaz de 19 anos foram baleados dentro da casa de um homem conhecido como “Zé da Mata”.
Segundo o boletim de ocorrência, os atiradores chegaram ao endereço em uma motocicleta e efetuaram diversos disparos contra o grupo que estava no imóvel. A adolescente foi atingida no tórax e no glúteo. O rapaz sofreu ferimentos no tórax, na perna esquerda e na lateral direita do abdômen.

As vítimas foram socorridas por meios próprios e levadas à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Leblon. Devido à gravidade dos ferimentos, ambas foram transferidas para a Santa Casa.
Uma semana antes, na madrugada do dia 20, um adolescente de 16 anos foi morto com pelo menos 12 tiros dentro de uma casa na Rua Eduardo Pérez. A Polícia Militar foi chamada depois que moradores ouviram os disparos. Quando a equipe chegou, os bombeiros já estavam no endereço. A vítima foi encontrada caída próximo à porta da sala.
Testemunhas contaram à polícia que o atirador chegou em uma motocicleta Honda Biz, entrou pelo portão e seguiu até a sala, onde o adolescente estava deitado no sofá. Após os disparos, fugiu.
Outro adolescente dormia na residência e acordou com o barulho dos tiros. Ao sair para verificar o que havia acontecido, encontrou a vítima caída, mas não conseguiu identificar o autor.
A testemunha também informou que, cerca de dois dias antes, o adolescente havia discutido com uma pessoa que não morava na região. O motivo do desentendimento não foi esclarecido.
Durante a perícia, foram encontradas 11 cápsulas de munição calibre 9 milímetros, dois projéteis e uma parte metálica de outro projétil.
Quatro dias depois, na sexta-feira (24), um motociclista de 19 anos foi baleado por um policial militar durante uma perseguição na Rua Antônio Bittencourt Filho, também no Bairro Nhanhá.
Segundo as informações apuradas no local, ele trafegava na contramão e desobedeceu à ordem de parada. Durante a fuga, seguiu em direção à Avenida Manoel da Costa Lima.
O motociclista foi atingido e caiu com a moto entre a Travessa do Touro e a Rua Cristóvão Escapulatempo. Ele foi socorrido e encaminhado à Santa Casa. Após a ocorrência, duas quadras da Rua Antônio Bittencourt Filho foram isoladas para o trabalho das equipes policiais.
Com o ataque desta segunda-feira, levantamento feito pelo Campo Grande News aponta que, entre 1º de janeiro e o dia 27 de julho, oito ocorrências com disparos deixaram duas mortes e pelo menos dez feridos na Vila Nhanhá.
Em janeiro, dois moradores foram baleados. Março teve um ferido e uma morte. Dias depois, a casa onde ocorreu o homicídio foi atingida por dezenas de disparos, sem novos feridos.
Em maio, um faxineiro foi baleado. No mês seguinte, três jovens foram atingidos em frente a uma residência.

Mudança de rotina – Na Rua Bom Sucesso, a comerciante Luciana de Fátima, de 47 anos, mantém o estabelecimento aberto apenas durante o dia. Ela afirma que a área onde trabalha é mais tranquila, mas reconhece os riscos provocados pela proximidade dos locais onde ocorrem os ataques.
“Esse negócio de tiro e bala perdida é complicado”, afirmou.
Luciana acredita que os crimes mais graves estejam relacionados a conflitos entre grupos e ocorram principalmente na parte interna do bairro. Ainda assim, evita abrir o comércio à noite por segurança.
“Por ser um bairro perigoso, a gente evita. É um comércio que mexe com dinheiro, tem cliente e celular. A pessoa pode entrar para jantar, mas também pode estar olhando o que tem dentro”, explicou.
Segundo ela, a rotina de trabalho durante o dia reduz a exposição aos episódios de violência. “A gente atende até as duas horas da tarde. No outro dia, às oito da manhã, estamos aqui. Nesse horário, para nós, é tranquilo”, disse.
O entregador Johnny Ferreira, de 30 anos, trabalha há cinco anos na região e reclama da falta de policiamento preventivo. Segundo ele, as equipes aparecem principalmente depois de serem acionadas.
“Aqui só está faltando policiamento. Não tem polícia, só quando liga”, afirmou.
Para reduzir os riscos, Johnny evita parar em locais onde percebe consumo de drogas ou movimentação suspeita. Em algumas ocasiões, afirma ter adiado entregas para não expor a motocicleta, o celular e os produtos transportados.
“Se tiver gente usando alguma coisa, eu não paro. Vou embora. Já remarquei entrega várias vezes. Não posso arriscar”, contou.
O entregador afirma que alguns clientes entendem o adiamento, enquanto outros reclamam. Mesmo assim, diz que não entra em locais considerados perigosos.
“Vou arriscar? Não posso. Minha outra moto já foi roubada. Não vou perder outra”, concluiu.
